Em busca de Rui de Noronha, escritor moçambicano revisitado

Índice 1.        Resumo2.        Introdução3.        A Prosa: Do 1º. Conto – “O Canário”(1926) ao ensaio sobre “A Escravatura” (1935) 4.        A Poesia : Os “Sonetos” mutilados e outros Poemas  5.        Conclusões  6.        Anexos Gravuras:-          Fac-símile dos “Sonetos”, Lourenço Marques, Tip. Minerva Central, (1943).-          Os primeiros estudantes do Liceu de Lourenço Marques que usaram capa e batina.  In RUFINO, José dos Santos, Albuns Fotográficos…, vol. II, 1929, p. 49.-    A redacção e administração do Brado Africano, Lourenço Marques, 1935. In AHM, Fototeca, n.º 331.7.        Bibliografia   1. Resumo  Escrever sobre Rui de Noronha não é fácil, após as obras publicadas por Fátima Mendonça[1] e Elsa de Noronha[2]. Daí, o título dado a este pequeno ensaio: “Em busca de Rui de Noronha, escritor moçambicano revisitado”, em que de novo se procura na sua prosa e nos seus belos poemas, fonte de inspiração para compreender a sociedade onde viveu, de forma crítica e sensível, como escritor do quotidiano urbano de Moçambique, dos  finais da década de 20 ao início da década de 40 do século XX. 2. Introdução 2.1 A questão de partida   Como estudiosa da História de Moçambique, interessa-me conhecer, compreender e analisar os tempos de ruptura, no que têm de dinâmico e de mudança em relação a  épocas anteriores. A ideia de independência, por exemplo, face ao regime colonial. Como se operou a mudança, em termos políticos, vivi-a intensamente mas a minha curiosidade não tem limites e leva-me a pôr a questão da anterioridade da ideia. No passado, quem a sonhou? A geração de Noémia de Sousa e de José Craveirinha, é certo! Mas antes, quem terá sido a primeira voz?                 2.2 ObjectivosCom este pequeno ensaio, pretendo prestar uma singela homenagem aos homens como Rui de Noronha, que ousaram sonhar uma sociedade justa, livre e fraterna, uma Pátria – Moçambique e que, constituiram um alicerce da independência, arduamente conquistada. Por outro lado, procuro demonstrar, através da apresentação da obra de Rui de Noronha, que se trata, de facto, de um precursor da literatura africana de expressão portuguesa, vanguardista, não na forma mas no conteúdo do seu universo poético e prosador, onde se destaca a evocação da terra – África, como africano e de Moçambique, como luso – moçambicano, a evocação da Mulher, do Amor, de Deus e dos Homens, do canto dos trabalhadores, da miséria dos explorados e da riqueza da cultura africana. 2.3 MetodologiaAo iniciar esta pesquisa foi decisiva a orientação da Professora Fátima Mendonça e de José Moreira[3] e as entrevistas[4] a Noémia de Sousa, José Craveirinha, Willy Waddington, seu amigo e a Elsa de Noronha, sua filha. E, foi assim, que descobri o escritor, Rui de Noronha, entre os seus papéis, procurando com ansiedade os seus belos poemas, como “Quênguêlêquêze!…”[5], lendo com agrado os primeiros contos juvenis, como “O Canário”, chegando às crónicas sociais e aos ensaios maduros sobre a “Prostituição Indígena”, “A Solidariedade”, sobretudo a causa africana, nos velhos jornais e revistas de Lourenço Marques, como (O) Programa dos Teatros – (A) Miragem, (O) Anseio, (O) Brado Africano, (O) Emancipador, (O) Notícias, onde publicou os seus trabalhos, saltando de júbilo ao redescobri-lo entre os seus inéditos, em páginas amarelecidas pelo tempo.Importante foi o estímulo do Professor Nuno Júdice[6], na construção de um aparato crítico, em torno da obra “Sonetos”, em que se demonstrou a mutilação dos poemas pela mão de Reis Costa. Assim, comparou-se a versão inicial, nos jornais e revistas da época com a versão corrigida pelo seu professor de francês no Liceu de Lourenço Marques, que a publicou adulterada[7].  A investigação para a tese de mestrado sobre o Grémio de Lourenço Marques, criado em 1908 e transformado em 1938 em Associação Africana da Colónia de Moçambique e para a tese de doutoramento sobre o movimento associativo moçambicano, permitiu a contextualização histórica, sociológica e psicológica dos filhos-da-terra, onde o escritor Rui de Noronha se inseriu, como actor social de relevo. 2.4 A importância de Rui de NoronhaAo estudar os jornais e as revistas da época em que viveu, é possível descortinar-se a trajectória de trinta e quatro anos de vida (1909-1943), o perfil deste grande expoente da literatura moçambicana, entrevendo nos primeiros escritos, nos primeiros versos amorosos, o que viria a ser o prosador-poeta Rui de Noronha. Defendemos neste pequeno ensaio a tese que foi um precursor da moderna poesia moçambicana, daí o epíteto de – a primeira voz! olga.gif

Sobre a sua biografia sabe-se que nasceu a 28 de Outubro de 1909 no Língamo, em Lourenço Marques, hoje Maputo, tendo sido registado como António Rui de Noronha, filho de José Salvador Roque das Neves Noronha, goês, natural de Loutolim (Goa), escriturário – contabilista da WENELA (Agência de recrutamento de mão-de-obra para as minas da África do Sul), e de Lena Sofia Chiluvane (Florinha), sua primeira mulher, natural da Zululândia. O seu irmão mais velho, Amancio de Noronha foi funcionário público, tal como Rui de Noronha o foi nos caminhos de ferro de Lourenço Marques. Da segunda mulher, Luisinha, José Salvador Roque das Neves teve quatro filhos – Luísa Grasmila das Neves Noronha (médica), Aires (contabilista), Edgar (engenheiro químico) e Célia (licenciada em farmácia).                 Frequentou a Escola Central Paiva Manso, tendo concluído a instrução primária em 1921, quando tinha doze anos de idade, sendo aluno do professor Vasco da Gama Xavier Dantas da Silva. Mais tarde, frequentou o Liceu Nacional Central 5 de Outubro até ao 5º. ano, sem todavia o ter completado. Era uma aluno muito inteligente, recorda Alexandre Lobato, seu colega e amigo, que testemunha no “O Mundo Português”[8] os hábitos dos estudantes de Coimbra, que caracterizavam o ambiente juvenil do liceu. Envolvido nesse meio, Rui de Noronha cantava fados de Coimbra e fazia-se acompanhar à viola, sendo notável a interpretação de “A Samaritana”, “A Cruz de Guerra”, entre outras. Destacou-se, como autodidacta no campo musical, aprendendo através de livros sem mestre, tocava viola, guitarra e mais tarde violino. Escreveu os primeiros poemas dedicados aos colegas. Foram amigos dessa fase – Willy Waddington (jornalista), Alexandre Lobato (historiador), Deolinda Martins (médica) e Carlos Simões. 3. A Prosa: Do 1º. Conto – “O Canário” (1926) ao ensaio sobre “A Escravatura” (1935)Como hipótese de sistematização da sua obra, parece-nos que esta pode ser dividida em quatrograndes formas, segundo a temática abordada:1ª. ensaística, fiosófica, humanística – abordagem de binómios: Deus/Homem; Bem/Mal; Vida/Morte e de conceitos-chave da existência humana: Eu/Verdade/Razão;2ª. interventiva, jornalística, polémica – sobre a defesa dos pobres, dos “indígenas” – camponeses, mineiros, carregadores do cais; de crítica social, sobretudo à administração colonial e às mulatas, que nada querendo com os seus irmãos, procuram casar com homens brancos;3ª. política, associativa, utópica – de apelo à participação na Associação Africana para a defesa da causa africana e de belíssimos conselhos sobre a fraternidade e a silidariedade entre os homens;4ª. subjectiva, emocional, sensitiva – de ensaios, como se brotasse a primeira inspiração, numa ideia em rascunho, que mais tarde burilava em novas prosas e poemas.Para além destas quatro formas, parece-nos útil distinguir as várias fases por que passou a sua tão breve vida: 1ª. de 1926 a 1932 – a do jovem poeta e contista “naïf”; 2ª. de 1932 a 1936 – a do jornalista adulto, polémico e interventivo, “proto-nacionalista”; 3ª. de 1936 a 1943 – da fama à decadência, a fase da “desventura”, o que iremos desenvolver em seguida:1ª. O primeiro conto, que se conhece foi publicado n’ O Brado Africano, em 1926, colaborando na secção literária, quando tinha apenas 17 anos de idade. De uma grande ingenuidade, o conto intitula-se “O Canário”e, aparece assinado pelo jovem autor, Ruy de Noronha. Mas é n’ (O) Programa dos Teatros, em 1929, que se inicia como poeta, publicando os seus poemas com o pseudónimo de Cancarrinha de Aguilar, colaborando na secção de verso desta revista. Desta primeira fase são exemplos, os poemas “12 de Abril”[9], comemorando o primeiro aniversário da revista, bem como “Perfil”, I-VIII[10] com que delicia e retrata figuras femininas do meio “chic”, de Lourenço Marques.                Encontram-se em 1930, na referida revista, poemas admiráveis como “Tormenta”[11], “Amor e Ódio”[12], que assinou com o nome completo – António Rui de Noronha. Foi nessa altura, responsável pela secção de versos do “Programa dos Teatros”, mais tarde com a designação de “Miragem”. Interessante é notar, a direcção que imprimiu à dita secção de versos, como se pode constatar nos conselhos que deu ao seu amigo e jornalista Willy Waddington, ao devolver-lhe os versos sem os ter publicado, pois que primeiro devia ler António Feliciano de Castilho, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Antero de Quental e, concluídas as leituras, tendo aprendido a versejar poderia, então, Waddington ensaiar de novo a sua veia poética.                 A partir de 1932 inicia-se a segunda fase, que segundo a nossa proposta vai desse ano até 1936, tempo esse que poderíamos chamar , dada a sua importância, de “activista social”, em que desempenha o cargo de 2º. Secretário[13], portanto membro eleito da Direcção do Grémio Africano, mais tarde Associação Africana, que congrega a elite africana e não só de Lourenço Marques, importante grupo de pressão, em “prol dos direitos dos naturais da Colónia de Moçambique”, como se expressava claramente em sub-título, o seu órgão O Brado Africano.                Foi aí, no Brado Africano, que Rui de Noronha abriu uma secção de crónicas sociais intituladas: “Ao Mata Bicho”[14], onde ensaiava como articulista social, assinando os seus irónicos artigos de crítica social, com o pseudónimo de Xis Kapa. No meio jornalístico ficaram conhecidos os seus amigos – Edmundo Cruz, Odragom e Midam (pseudónimos), assim como ficou célebre a polémica que teve com o advogado Nobre de Melo, de Inhambane, em torno da questão: “A Pátria Portuguesa” e na qual Rui de Noronha ou aliás, Xis Kapa defende que, a Pátria é o lugar onde se nasce[15]. Primeiro indício de moçambicanidade? De proto – nacionalismo? Parece-nos que sim. Todavia, muito há que investigar sobre o pensamento fluído e profundo de Rui de Noronha. Ao analisar a imprensa africana, como propôs Alfredo Margarido[16] e Mário Pinto de Andrade[17] poderemos provar que, Rui de Noronha é mais do que um poeta que canta “amores impossíveis”, como queria reduzi-lo Ilídio Rocha[18].                Justamente através do estudo da sua prosa, irónica e profunda, podemos descortinar o seu pensamento, como um defensor da “causa africana”, já que se preocupou com o quotidiano dos africanos, lutou com a sua pena pelos seus direitos, pela educação, sobretudo da mulher chamada “indígena”, pela dignidade do trabalho, denunciando a situação do trabalhador mineiro, que vende a força do seu trabalho, nas minas do John (na África do Sul), do carregador explorado no cais, pela justiça em geral e, em particular, a condição dos mulatos, a sua própria condição, como mulato e assimilado. Veja-se o artigo: “Prostituição Indígena”[19], em que retratou a situação da mulher prostituta em Lourenço Marques nos anos trinta e, como defendeu as medidas tomadas pelo sistema socialista na União Soviética, face a esse grave problema social.                Nessa fase foi funcionário público, Aspirante dos caminhos de ferro de Lourenço Marques. E, em Agosto de 1932 noticiava (O) Brado Africano que, “acaba de assumir o lugar de Secretário da Redacção, o 2º. Secretário do Grémio Africano, o nosso muito ilustre patrício, snr. Rui de Noronha. Novo ainda, mas com qualidades brilhantes para o jornalismo, muito terá o nosso “Brado” a lucrar com a sua proventosa acção…”[20]Casou-se nessa época com Albertina Carolina dos Santos, filha de Francisco Eduardo dos Santos, carcereiro do Presídio de Lourenço Marques e de Justina de Aguiar (N’timene), de origem aristocrática, princesa de um dos reinos de Maputo, afilhada de Roque de Aguiar, importante figura da Maçonaria, que lhe deu o apelido.Festejando o décimo sétimo aniversário da fundação do “Brado”, realizou-se uma festa na redacção do jornal. Noticiado o evento, aparece uma referência a Rui de Noronha, como redactor do jornal, seminário ao qual ficará ligado até ao fim da sua curta vida como colaborador[21].A sua fase áurea, de 1934 a 1936, testemunharam-na os jornais da época. Correspondeu a um intenso período de vida social – Presidente do Clube Desportivo Vasco da Gama; Director de um Grupo Dramático, onde dirigiu a encenação da peça: “Frei Luís de Sousa”, apresentada a Alves da Costa, grande dramaturgo português, aquando da sua visita a Moçambique; membro do Centro Cultural dos Novos, onde apresentou pela primeira vez os “Sonetos”, submetidos ao fogo da crítica “para serem publicados em livro”[22]; membro do Grémio Africano e do corpo redactorial do “Brado”[23]. Fez pequenas palestras e conferências, nos clubes a que pertenceu, sendo a mais célebre, a que pronunciou sobre o tema: “A Escravatura”, muito elogiada na época [24]. E, tão cedo o levou a morte, quando tinha apenas trinta e quatro anos! Todavia, legou-nos uma obra inolvidável, dispersa pelo (O) Brado Africano, (O) Programa dos Teatros – (A) Miragem, Anseio, (O) Emancipador, Notícias, África, que espelha o poeta, o pensador, a activista social, a primeira voz de Moçambique. (Continua na próxima semana)


[1] Professora da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Ver Bibliografia.
[2] Filha de Rui de Noronha. Tem compilado a obra do Poeta e organizou uma Associação – Espaço Rui de Noronha, dedicando-se como poeta-de-dizer à sua obra.  

[3] Ver Bibliografia.

[4] Ver fontes orais.

[5] Em Xi-Ronga, significando em português “ Lua Nova”.
[6] Poeta portugués, Professor no Mestrado em História dos Sécalos XIX e XX na FCSH da UNL.
[7] Ver Rodrigues Júnior, 1980, pp. 47-53.

[8] Ver o n.º 5-6, de 1946.

[9] In “Programa dos Teatros”, 1, 12-18.04.1930, p. 3. O poeta comemorou o aniversário do “Programa” com um belo soneto, em que vaticinou: “…É longa a tua missão. Vamos desperta!…”

[10] “Perfil”, I. In “Programa dos Teatros”, 6, 17-23.05.1930, p. 12. Idem, 13, 05-11.07.30, p. 14. Idem , II, 7, 24-30.05.30, p. 9. Idem, III,  8, 1-7.05.30, p. 12. Idem, IV, 9, 7-13.06.30, p.8. Idem,15-2, 26.07.30, p. 10. Idem, V, 10, 14-20.06.30, p. 8. Idem, VI, 11, 21-27.06.30, p. 16. Idem, VII, 12, 28.06-04.07.30, p. 14. Idem, VIII, 13, 5-11.07.30, p. 5.     

[11] Este poema teve na versão original, o título de “Tormenta”. In “Programa dos Teatros”, 1, 12-18.04.1930, p. 28; cf. “Tempestade”. In “Sonetos”, p. 66, onde o autor cortou os versos 12-32 para reduzir o poema à forma de soneto.

[12] In “Programa dos Teatros”, 3, 26.04-02.05.1930, p. 10.

[13] Ver “O Brado Africano”, n.º 596, 23.04.1932.

[14] Ver “O Brado Africano”, n.º 587, 20.02.1932. Início da rubrica: “Ao Mata Bicho”.

[15] Ver o artigo “Acabando”. In “O Brado Africano”, n.º 595, 16.04.1932.

[16] MARGARIDO, Alfredo, Estudos sobre as Literaturas das Nações Africanas de Língua Portuguesa, Lisboa, Ed. Regra do Jogo, 1980, pp. 5-115.

[17] ANDRADE, Mário Pinto de, Origens do Nacionalismo Africano, Lisboa, Publ. D. Quixote, 1997, pp. 99-140.

[18] ROCHA, Ilídio, “Sobre as Origens de uma Literatura de Expressão Portuguesa: Raízes e Consciencialização”. In Les Litteratures Africaines de Langue Portugaise. Actes du Colloque International, Paris, 28.11-01.12.1984, F. Calouste Gulbenkian, 1985, p. 408.

[19] Ver “O Brado Africano”, n.º 638, 03.12.1932.

[20] Ver “O Brado Africano”, n.º 614, 27.08.1932.

[21] Idem, n.º 684, 30.12.1933.

[22] Idem, n.º 797, 07.03.1936.

[23] Idem, n.º 787, 24.12.1935.

[24] Idem, n.º 772, 07.09.1935.

 

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