Memória de África Digital
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Carlos Sangreman |
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Carlos Sangreman |
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O presidente americano George W Bush e a sua secretária de estado Condoleezza Rice poderão ter trocado os dados quando apontaram a China e a India como principais responsáveis pela crise gobal de alimentos resultante da sua crescente prosperidade e consumo.
Os dados em posse da FAO - A organização de alimento e de agricultura de Nações Unidas indicam que os EUA consomem mais cereais do que a China e a India juntas.
Segundo um relatório global sobre alimentos emitido pela FAO, o consumo de cereais na Índia cresceu por 2.17 po cento, de 193.1 milhões de toneladas em 2006-07 para 197.3 milhões de toneladas em 2007-08, enquanto na China a subida foi de 1.8 por cento, ou seja, de 382.2 milhões de toneladas para 389.1 milhões de toneladas.
Durante o mesmo período o consumo de cereais nos EUA, a maior economia do mundo, o consumo cresceu por 11.81 por cento, isto é, de 277.6 milhões de toneladas para 310.4 milhões de toneladas. A grande parte deste consumo não passou pela comida, mas para transformação em bio-energia mais económica.
Com o preço de petróleo (crude) em $115 por barril, os EUA utilizaram 30 milhões de toneladas de milho para transformá-lo em bio-energia. Desta forma este tipo de utilização aumentou duas vezes e meio entre 2000 e 2006.
“Quase 30 milhões de toneladas de milho foram utilizadas nos EUA no ano passado para produção de bio-fuel,” segundo Ashok Gulati, o director da International Food Policy Research Institute para a Ásia.
Há mais dados para provar que a responsabilidade pela crise global de alimentos não pode ser atribuída à India. Embora a Índia é habitada por um sexto da população global, só consumiu 9.37 % dos cereais em 2007-08, e 9.36 % no ano anterior.
O consumo dos EUA, segundo o relatório da FAO subiu de 13.46 % em 2006-07 para 14.74 %. No caso da China, é de notar que o seu consumo baixou de 18.53 % para 18.48 %.
“Outros factores, tais como a seca em Australia, o desvio de milho para produção de bio-fuel nos EUA e a especulação nos mercados, são os maiores responsáveis da crise,” disse Gulati.
Fonte: http://tinyurl.com/4hyvgb
Quem julga que uma possível estagnação mental portuguesa é um fenómeno recente, está muito enganado. Efectivamente, esta estagnação vem acompanhando este povo – pelo menos – desde a segunda metade do século XVI. Assim o afirmava António José Saraiva em 1961 (in O Português e o Universalismo). Contudo, muito antes disso, já o dizia Camões:
“Não Mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada, e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza.”
(Os Lusíadas, canto X, 145).
Ainda a este respeito, Saraiva refere que o homem português é um náufrago que voga ao sabor de um sebastianismo que se revela pela ausência de iniciativas que contrariem o seu Pathos.
Para Saraiva, “Os Portugueses não podem ser um recanto escuro, uma falha na inteligibilidade do Universo” mas põe-se a questão de saber se serão tão explosivos como alega Keyserling (Keyserling apud António Quadros, O Homem Português, 1984):
“Na sua Análise Espectral da Europa, Hermann de Keyserling apontou como primeiro traço característico do português a sua explosividade, lembrando que todos os altos feitos e gestos portugueses foram verdadeiros fenómenos de explosão, navegadores lançados em volta do Planeta como balas de canhão.”
Ou seja, com alguma ironia e tecnologia adequada, poderíamos ter antecedido em mais de quatrocentos anos os programas espaciais tripulados soviético e norte-americano! Fantástico!
É curioso verificar que, desde a perspectiva de falta de persistência, de tristeza, de inveja, de vaidade susceptível, de intolerância e de espírito de imitação, a que se refere Teixeira de Pascoaes, até ao síndroma provinciano, reflectindo-se em cultura estrangeirada, mimetismo cultural, decadência do espírito criador, desnacionalização ou perda da consciência superior da nacionalidade, avançados por Fernando Pessoa, até à curiosa hipertrofia mítica, de Francisco da Cunha Leão, temos sido acariciados por todo o tipo de classificações mais ou menos simpáticas, sem que daí tenha resultado o mais leve despertar de um autêntico lusitano torpor.
Todavia, a mais deliciosa alegoria da portugalidade surge-nos sob a imagem de um polvo:
“O português é um castelhano sem ossos (…) O castelhano efectivamente, é todo em ossos, esquelético, Tem qualquer coisa de lagosta… O português, ao contrário, é como o polvo… Mas que a lagosta se acautele antes de lutar com o polvo… Pode sentir-se, de repente, nas trevas a gritar com aflição, desorientada: que me terá acontecido? Nada… foi o polvo que a enredou, que a escamoteou, que a perdeu…” (Miguel de Unamuno apud António Quadros, idem).
Obtemperando, surgem-nos explicados claramente os acontecimentos de São Mamede, Aljubarrota e Montes Claros. A tropa portuguesa - em formação tentacular - aproveitou-se de um deslize da lagosta espanhola (primeiro galega), para conquistar a independência.
Todas estas maravilhosas perspectivas que me colocam algures entre o surdo empedernido do nosso poeta maior e o molusco de um expoente filosófico espanhol (Basco, por sinal) transmitem-me uma certa sensação de mal-estar, que se agrava substancialmente quando confrontado com a necessidade de falar sobre o tão badalado Acordo Ortográfico.
Por um lado, tenho aqueles que pensam que “A decadência da linguagem e a sua perversão anunciam, com o declínio do homem, o declínio de uma civilização (…) A decadência de uma linguagem mão é tanto uma doença como um sintoma (…) A palavra ainda tem significado, mas sentido já não” (Bigotte Chorão, A Literatura Portuguesa, 1984; & Ernst Junger apud Chorão, idem); no outro extremo, leio Mia Couto (Ciberdúvidas, 1997) que escreve “A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia (…) vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas”.
Ou seja, para quem não é linguista mas se serve desta em mais do que um contexto puramente comunicacional (leia-se informações e metadados), vejo-me na contingência de ter de defender, de atacar, ou pura e simplesmente de me abster sobre as formas futuras da minha língua materna.
Confrontado com a questão: serei o tal polvo, utilizando as técnicas de fuga e dissimulação deste inteligentíssimo animal para escapar à rigidez de uma opinião?
Pelo contrário, serei eu o projéctil balístico apontado a detractores ou a defensores da mudança, a todos crivando de bombásticas respostas acerca do que deveria tornar-se o futuro “Bom Português”? E porque não o “Bom Brasileiro” ou o “Bom Angolano”, etc.?
Confesso que não quero ser nem uma coisa nem outra. Não estou à altura de dizer se a Lusofonia é afinal um mero conector linguístico entre povos, gerado por uns, burilado por outros e apropriável por todos.
Prefiro sentir-me um Europeu lusotropicalizável que não escapa à perspectiva incontornável de que as raízes do seu logos estão associadas a um outro país que não vive estes dilemas linguísticos. Um país, curiosamente, que deu origem a uma cultura universal, mas cuja língua – na sua totalidade - só é falada pelos seus habitantes: a Grécia.
Vivo imerso na tal cultura estrangeirada a que se refere Pessoa e ainda não consegui perceber se a língua portuguesa é uma manifestação de algo que está a um nível superior – um logos de origem lusitana, mas superiormente enriquecido por insumos universais.
Enquanto não encontro resposta, utilizando a boleia proporcionada pela alegoria da bala de canhão, prefiro saltar fora deste tema tornando lusitano o aventuroso Barão de Munchausen que não sendo bala de canhão, desta se serviu para escapar ao cerco feito à sua cidade pela Sublime Porta Otomana, leia-se Acordo Ortográfico.
