Acordo Ortográfico: A Terceira Via

Teorema de Lasswell
Referindo-se à questão do “Acordo Ortográfico” e à posição que tomei sobre a matéria, o Orlando teve a gentileza de alegar que “Com todo o respeito, não concordo com uma posição de neutralidade nesta matéria — ou melhor, quem se abstém, consente”. Permito-me discordar, pois abstenção não é a mesma coisa que não-participação, conforme a defesa que faço a seguir.
Indo, uma vez mais, buscar a influência que a Cultura Grega tem sobre a nossa forma de pensar e de agir, gostaria de recordar que a Paidéia não pretendia formar “heróis que combatiam o destino” (leia-se Fado), mas antes cidadãos que debatiam o saber estabelecido, tornando a cultura da “polis” num conceito vivo.
Em Portugal, parece haver especiais dificuldades no exercício desta Praxis. Como afirma Adriano Moreira, debate-se ainda qual o conceito estratégico do país no pós-colonialismo, o que não deixa certamente de ter ligações profundas com a difícil sedimentação de um conceito de Cultura Portuguesa.
Efectivamente, utilizando uma figura de estilo, afigura-se-me mais importante seleccionar que “tipo de carro” é que precisamos (Cultura), antes de escolher a “cor do carro” (Língua), propriamente dita. A Cultura Portuguesa está ex ante e o Acordo Ortográfico está ex post. Ou seja, na minha mais do que discutível opinião, não podemos colocar “a carroça à frente dos bois”; não podemos dirimir - ad quem- o que queremos fazer com a nossa Língua, sem antes nos ocuparmos - a quo - com o que é a nossa cultura.
Em meu auxílio, ao falar de uma cultura Portuguesa, lembro-me de Agostinho da Silva e das suas sábias palavras “do lado dos portugueses não há empirismo de espécie alguma, como não há cepticismo; o português funciona como um feixe de convicções” (Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, Âncora Editora. pp. 68-69).
Assim, se quisermos atribuir um substrato empírico a esta questão, não podemos deixar que certas convicções e pressupostos (existe uma só Língua) se sobreponham de forma indirecta (modus tollens) à avaliação dos resultados aferidos (existem várias formas de falar e de escrever). Aliás, será que o fenómeno cultural e o logos dos povos abrangidos pelo “Acordo Ortográfico” é um só?
Se não formos cépticos, se nos deixarmos levar “na onda” emocional de considerar que o cisne (a Língua) tem de ser preto ou branco, vamos entrar naquilo a que Popper designou por falseabilidade, ou seja, colocamos desde logo um enunciado que tem como predicado a cor dos cisnes (Língua Portuguesa), quando é provável que, no momento presente, já estejamos a falar de diversas espécies de aves (Língua Portuguesa, Língua Brasileira, Língua Angolana, Moçambicana, etc.).
Ao achar que primeiro devemos discutir Culturas e só depois as Línguas, estou a exprimir minha forma de participação na polémica do “Acordo Ortográfico”.
Não estou a abster-me de me pronunciar sobre a questão; estou a indicar apenas a minha convicção de que estamos a promover um debate em que as questões surgem pela ordem inversa que deveria existir.
Assim, participo activamente na minha Pólis com uma opinião concreta a montante do “Acordo Ortográfico” e que pretende lançar uma “terceira via” de diálogo.
Deste modo, não é possível concordar, quando me é imputado o “quem cala, consente”. Propor outros caminhos de reflexão não é um consentimento tácito e acaba por ser a minha forma de responder à célebre Maldição de Platão: “O castigo por não participares na política, é acabar a ser governado por quem te é inferior”.
Se não o fizesse, estaria em contradição com a minha alma de português a qual, essa sim, felizmente tem muito pouco de científico: “é a fé que o move; e a experiência, que é naturalmente diferente de empirismo; apenas o confirma na sua fé; porque, se não confirmasse, o português de nenhum jeito reformaria o seu sistema de convicções: preferiria abandonar-se e morrer” (Agostinho da Silva: idem).