Folhas de História

Maio 9, 2008

Líbano: interesses ocidentais e Hezbollah

Arquivado como: Relações Internacionais — shivshakti @ 8:20 pm
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O Líbano é um país culturalmente rico, politicamente complexo e religiosamente o mais dividido no Oriente Médio.

O pequeno Líbano desconcerta as pessoas de fora. Até mesmo as pessoas no Oriente Médio consideram sua política confusa.

Estabelecido pela França após a Primeira Guerra Mundial como um Estado predominantemente cristão, o Líbano agora é cerca de 60% muçulmano e 40% cristão.

O país tem 18 grupos religiosos reconhecidos oficialmente, e a divisão de poder entre eles sempre foi um jogo complicado.

Os muçulmanos libaneses tendem a olhar para o Oriente em busca de apoio de parte de outros Estados árabes e do Irã. Os cristãos tendem a olhar para o Ocidente, para a Europa e os Estados Unidos. É o problema do Cristianismo exportado pelo colonialismo.

A proximidade de Israel – e a presença de um grande número de refugiados palestinos em seu território – significa que ele também está intimamente ligado à disputa árabe-israelita.

O Líbano já tem problemas próprios suficientes, mas também se tornou palco de muitos dos conflitos e rivalidades regionais.

Influência síria

O longo conflito que destruiu o país de 1975 a 1990 foi tanto uma guerra civil quanto uma guerra regional.

Ele deixou o Líbano fortemente sob o controle da Síria e com uma faixa ao sul de seu território ocupada por Israel como uma zona de proteção.

Israel interveio repetidamente no Líbano para proteger sua fronteira norte.

A guerra civil também trouxe o Irã para combater Israel e apoiar os xiitas libaneses.

Em 1982 o Irã criou o Hezbollah, ou Partido de Deus, que evoluiu para se tornar uma peça importante da política libanesa e um importante aliado do Irã e da Síria.

As tropas israelitas se retiraram finalmente em 2000, e os sírios saíram em 2005.

Mas, enquanto a Síria não tem mais uma presença militar no país, ela manteve sua influência política por meio de seus laços com o Hezbollah.

Ofensiva israelita

Foi diante desse quadro de conflito e polarização que a guerra na fronteira entre o Líbano e Israel se desenrolou em julho.

A captura de dois soldados israelitas pelo Hezbollah provocou um mês de ataques israelitas.

As áreas nas quais o movimento xiita tem mais apoio – o sul do Líbano e os subúrbios ao sul de Beirute – sentiram o peso da ofensiva israelita.

Os ataques provocaram mortes em larga escala e destruição, mas não conseguiram assegurar a libertação dos soldados ou a derrota do Hezbollah.

O Hezbollah afirmou ter conseguido uma “vitória divina”.

Após a guerra, o país começou a tarefa de reconstrução física, mas ainda está atormentado por suas antigas divisões.

O Fim do balanço de poder favorável ao Ocidente

O governo está fortemente dividido em facções anti-Síria e pró-Síria.

O primeiro grupo é uma frágil aliança entre sunitas, cristãos e drusos (grupo religioso originário do islamismo) e tem o apoio dos Estados Unidos.

O segundo é essencialmente um agrupamento de xiitas dominado pelo Hezbollah, com o apoio da Síria e do Irã.

Simbolizando esta polarização está o facto de o presidente ser pró-Síria, e o primeiro-ministro, anti-Síria.

Duas coisas ajudaram a aumentar a temperatura até o ponto de ebulição.

Uma é a ameaça do Hezbollah de levar seus simpatizantes às ruas se não houver uma mudança de gabinete que dê ao grupo poder de veto sobre as decisões do governo.

A outra é a série de assassinatos de políticos anti-Síria, da qual a morte do ministro Pierre Gemayel é o último caso.

Raramente a situação do Líbano pareceu mais frágil do que agora.

O resultado da crise influenciará não somente o destino desse pequeno país, mas a balança de poder em todo o Oriente Médio que o Ocidente tanto teme fragilizar a sua influência e exploração do petróleo no Médio Oriente.

Nos últimos dois dias a tentativa do governo pro-Ocidente de Fouad Siniora para controlar o sistema de comunicações autónomo montado por Hezbollah (que aliás foi único meio que permitiu resistência contra o último ataque israelita com sucesso) como uma ameaça ao governo, tem sido a causa principal da actual crise. Como fez Hamas no ano passado em Gaza, Hezbollah está decidido a pôr termo à interferência americana e europeia. O conjunto das situações de conflito no contexto internacional em Sudão, Somália, Zimbabué, Iraque, Líbano, Afeganistão, Paquistão, Tibet, Birmânia, manifesta cada vez mais a capacidade da “comunidade internacional”  real (a maioria das nações com representação na ONU) de pôr a nú e resistir os interesses privados e ocultos dos países ocidentais que se apresentam como defensores de direitos humanos e da democracia, e como representantes únicos da comunidade internacional.

Muito em breve ficaremos a saber das iniciativas do Ocidente para proteger o regime de Siniora, caso as forças armadas do estado libanês não consigam corresponder ao apelo que fez Siniora através do seu discurso à nação. As forças armadas têm menos poder militar do que Hezbollah, mas a sua posição de neutralidade poderá dar-lhe a autoridade moral para manter o equilibrio e paz no país. Hezbollah também sabe disso e poderá precisar de mais tempo para impor a sua ideologia unilateralmente!

Motivos pelos quais me vou

Arquivado como: Culturas Lusófonas, Lusofonia — shivshakti @ 4:53 pm
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O Barman do Hotel Jangadeiro, onde por vezes tomo café expresso, deveria aranhar o inglês, pelo menos. Na realidade, este fruto da sociedade pernambucana, mal fala o português.

-O senhor sabe o que é civismo?-perguntei-lhe.
Desviou os olhos dos meus, concentrando-se no infinito, como que disfarçando a possibilidade de eventualmente poder saber do que se tratava, só estando a preparar-se para responder. Como eu esperei pela resposta, coisa de que não estaria à espera, confessou, passados uns segundos:
-Sei não senhor…
Tentei explicar-lhe, de modo a que ele percebesse, tal como faço quando falo com outro pernambucano de menor condição ou com uma criança.
Ele, após o douto discurso, concordou:
-É, eu sou pernambucano, mas concordo com o senhor.
-Eu vivo também num país atrasado, respondi-lhe, mas somos muito diferentes, sabe? Não tenho paciência para isto.
Na verdade, tornei-me arrogante com esta gente, talvez por algum complexo de superioridade que possa, de modo despercebido, ter invadido o meu ser. Racismo? Pode ser, mas não o da cor da pele, apriorístico e injusto. Talvez aquele racismo que senti quando um cidadão holandês me tratou com arrogância, quando eu lhe disse que era português, nos idos de 90, num parque de campismo em Casablanca.

“Uma andorinha não faz a primavera, nem duas nem três, mas às quatro já as amendoeiras começam a ficar em flor…”

Pernambuco está cheio de machismo, de má educação, de rudeza, incivilidade, e são estes o principais factores que me perturbam, que me fazem correr daqui, que não admitem sequer que eu admita que os meus filhos possam ser criados aqui.
Do mesmo modo, um cidadão estrangeiro a viver em Portugal pode ter estes sentimentos de falta de tolerância, de animosidade para com o português, por inadaptação, por diferenças culturais gritantes. Gritantes não é exagero.
Como, felizmente, não vim para aqui sem bilhete de regresso, posso escolher, tenho a sorte de poder escolher regressar ao meu país, mesmo que seja um país “triste”, como me dizia alguém outro dia, poeticamente, “envolto em nuvens que teimam em não desaparecer”.
“Não há paciência para isto” é a frase de ordem, que preside ao meu regresso e que me faz ser, doravante, um crítico do Brasil.
É uma palhaçada”, é a outra frase. Pernambuco é uma palhaçada. Não lhe devo nada, absolutamente nada. Ele é que me deve a mim, verdadeiro pregador do civismo. Acabei por deixar aqui algum dinheiro português. Pernabuco deve-me. O Brasil deve-me. A ele não devo nada. Todos os que comigo conviveram nada têm a dizer de mim. Eu deles muito, e mal, salvo as costumeiras excepções, claro.
Fui roubado, enganado, ludibriado, fintado, pintaram miséria comigo. Vi irmãos roubarem irmãos, vi desencontros fraticidas, punhaladas nas costas, instituições a enganarem os seus clientes, o Estado a fazer os contribuintes de lorpas, desonestidades sem fim.
Poderia até pensar em ser indemnizado por danos patrimoniais e morais, sobretudo por estes últimos, mas como sou um candidato a cientista social levo em conta que também vai daqui comigo algum património cultural…,aquele, o tal, da educação e do civismo.
Pernambuco tem-me à perna. O Brasil tem-me à perna.
Treme João Paulo!
Treme Luis Inácio!
Treme Ronaldo! (esta foi pra rir)

Pedro Araújo

Atlas digital da India meridional

O Instituto Francês de Pondicherry e a Universidade Tamil, em Thanjavur, iniciaram um projecto conjunto há dois anos para explorar a possibilidade de produzir um Atlas digital da India meridional. Estará acessível na internet com uma combinação de mapas, fotos, ilustrações, textos e informação GIS (Geographical Information System), uma facilidade ausente nos melhores trabalhos produzidos até à data. Este projecto tem como público alvo qualquer pessoa interessada no rico património histórico-cultural da Índia meridional, mas poderá ser um grande estimulo para uma maior colaboração entre os historiadores e os arqueológos, providenciando instrumentos de tecnologia dinâmica, que ajudará a relacionar as actividades económicas das sociedades pre-históricas e históricas da região, incluindo as movimentações demográficas, modos de utilização da terra e seus recursos naturais, e muito mais.

É um projecto apoiado pela Fundação Ford. Poderia servir de inspiração para projectos de colaboração luso-indiana em que as fundações portuguesas pudessem alargar a sua visão e os seus apoios para conservação e estudo do património regional que não se limitasse ao passado português. É uma consideração muito relevante no dia em que a Fundação Oriente vai abrir portas do seu projecto «Museu do Oriente» em Lisboa. É um projecto muito louvável, mas um projecto desta natureza e dimensão ficaria melhor localizado no seu habitat natural e confiado às agências oficiais e privadas das regiões interessadas. Os “Deuses da Ásia” não poderão estar muito à vontade fora do seu ambiente natural, ao contrário dos “deuses e santos” europeus que gostam de ser exportados para serem adorados / venerados por outros lá fora! Será que o Ocidente precisa de reviver as suas glórias do passado colonial, e o Oriente torna-se mais “divertido” e menos ameaçador enquanto mascarado e museificado ?

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