Lançado o livro *Casa Grande*, de Leopoldo da Rocha

rocha-copy.gifA literatura indo-portuguesa já é pouco conhecida em Portugal. Chegou hoje uma nova adição à uma literatura que devido  ao isolamento político de Goa desde 1961 tem entrado em esquecimento entre os portugueses do continente. Publicado pela Vega, o romance autobiográfico narra a vivência das famílias aristocráticas goesas durante o regime colonial português.  Descreve a transição a que foram submetidas pela mudança do regime. O vocabulário utilizado inclui muita palavra que só pode ser compreendida utilizando o «Glossario Luso-Asiático» (Imprensa da Universidade, Coimbra, 1919-21) da autoria de Sebastião Rodolfo Dalgado.  O autor aproveita a narrativa para uma catárse pessoal. Utiliza uma modalidade de psico-história para relatar a tortura a que foi submetido pela tradição familiar para seguir uma carreira eclesiástica para a qual não estava minimamente vocacionado. Neste romance, composto de ficção e realidade, em que a primeira componente, de grau reduzido, tem por finalidade principal manter o seu fluxo narrativo, deixando campo livre à realidade – as personagens descritas, embora ocultas sob outros nomes, são todas elas reais e verdadeiras – procura o autor recriar, através de matizes significantes da memória, períodos marcantes da história de Goa, feita de vivências e mudanças que marcaram profundamente a sua história e a de muitas famílias, quer enquanto estiveram sob a alçada do colonialismo português, quer depois quando a este se sucedeu o regime indiano.

Convidado para ser o apresentador oficial do livro no restaurante *Sabores de Goa*, na presença de uma centena de familiares e amigos de Goa, o Prof. Doutor Teotónio R. de Souza, historiador goês, Sócio da Academia Portuguesa de História,  e Professor da Universidade Lusófona,  agradeceu ao Dr. Assírio Bacelar, proprietário da Editora Vega pelo seu interesse ecuménico pela Lusofonia e pela qualidade da produção gráfica e rigor editorial. O apresentador chamou a atenção dos presentes à importância do registo de vivências individuais para se completar e validar a vasta panorâmica que se designa “história”, e prosseguiu com a apresentação do autor que conheceu desde 1964 em Goa, e tem-se mantido em contacto de amizade com o autor e sua família em Portugal.  Identificou vários protagonistas do romance, bem como os cenários vivenciais que constituem o fundo histórico do livro. Apontou para a falha de o livro não incluir um glossário de termos indo-portugueses, que podem ser empecilhos para um leitor português que não tenha acesso ao acima mencionado *Glossário*.  Agradeceu vivamente ao autor pela sua contribuição à historiografia de Goa, de uma maneira tão diferente da sua primeira obra clássica muito referida,  As confrarias de Goa (séculos XVI-XX): Conspecto Histórico-Jurídico, Lisboa, CEHU, 1973.

3 pensamentos sobre “Lançado o livro *Casa Grande*, de Leopoldo da Rocha

  1. Alegrei-me em ler o título do novo livro publicado por Leopoldo da Rocha. Ele foi meu professor no Seminário Patriarcal de Rachol, Goa, India. Quando estive em Lisboa, não me pude encontrar com ele. Depois li que trabalhava como Assessor Principal da Biblioteca da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa. Enviei-lhe o Anuário do Seminário de Rachol de 1987-1988, quando eu editei o Anuário por ocasião do Ano Mariano. Não possuo este livro, nem o vi. O Autor procura pintar a sociedade goesa do seu tempo. É interessante saber como o goês evoluiu no processo da simbiose de duas culturas: Indiana e Portuguesa. Seria interessante ler livros deste calibre. Entretanto, cheguei a ler artigos sobre a personalidade do goês. Eis os traços rápidos que podemos dar acerca dos goeses.
    Em que consiste a individualidade do goês? Esta é uma pergunta que ocorre ao goês quando se vê que Goa está a ser devastada por elementos que deturpam a nossa imagem.
    A personalidade do goês é um paradoxo: gosta da música como também de chouriços; pensa na casta enquanto está em casa, mas é um cosmopolita no estrangeiro, sabe viver em qualquer parte que vá. Marca a sua individualidade em todos os cantos e recantos do mundo. Tem afeição no seu coração a Goa em qualquer parte que esteja. Gosta de ouvir e de falar a sua língua-mãe. O goês é capaz de se adaptar em qualquer parte: na cozinha, no hotel, no gabinete, na sala de aulas.
    A sua cultura é uma simbiose do oriental e ocidental. Vive entre dois mundos diferentes. Acarreta as suas tradições e costumes onde for. Leva o seu pendor para música para todos os cantos do mundo. Ele tem o condão de ser tudo para todos, contudo nunca cessa de ser goês. Quando saboreia um copo de Scotch, não se esquece do seu Feni e de sorpatel. Ele pode comer com talheres ou com as suas mãos. O goês gosta de festas e sestas (fiesta y siesta), como também de iguarias refinadas e pratos esquisitos. Gosta do vinho, liquor, queijo, cigarro. Gosta de ditados em concani e de poesia. Louva os seus heróis, os seus santos, os seus antepassados.
    Gosta de hospitalidade, de jovialidade, de bom humor. Gosta de entreter uma audiência. Lembra-se da fruta da estação: manga, jaca, jambulão, jagoma, pera, cajú, churnas, carandas, chicús, papayas, melancias, melões. É bom actor, gosta de dramatizar. Lembra-se do ‘teatro’. Respeita a sua religião.
    É poliglota, gosta de aprender línguas. É pacato, não gosta de frenési. Gosta de futebol.
    Talvez gosta de “dolce far niente” (doce ócio). Tem ambição, mas não é bom comerciante. O goês cultiva mais os valores de amizade, camaradagem, benevolência, em vez de competição e comercialismo.
    Com lindas paisagens ao redor, o goês desenvolveu susceptibilidade emocional, que exprime mais na música do que nas artes plásticas. Pois a música é lingua-mãe de sentimentos, enquanto a arte plástica demanda tirocínio mais árduo. Ele exprime a sua nostalgia ou saudade e vivacidade no canto folclórico, particularment no mandó. Patético e vibrante de alegria, ele canta no mandó as memórias do seu coração goês. A pintura goesa é marcada com encanto e intensidade dramática. O goês é tenro, sonhador, melancólico, fogoso, apaixonado. O folclore goês representa união de tema indígena com a harmonia occidental. Vivendo em simpatia íntima e vital com a natureza, o goês tem singular graça de movimento que se exprime admiràvelment na dança. Ele pode dançar valza ou qualquer outro movimento apressado ou lento, como é o seu génio, vagaroso e emocionante.
    O goês é sossegado, vagaroso, lento, calmo, contagioso no seu entusiasmo (joie de vivre).
    Rodeiado de natureza, palmar, coqueiral, arecal, várzeas, praias. Ele vê o verdor das montanhas, sente a brisa, a beleza da floresta cerrada, a alvura da areia das praias, o azul das águas do mar.
    O goês pode visitar qualquer país, não sentirá o choque cultural, porque se sente à vontade em qualquer parte do mundo. Sons bucólicos de animais tem suave música para o seu ouvido. O goês é conhecido com ‘o sal da terra’, com as suas qualidades: genialidade, efusão, exuberância, expansão.
    Creio que Goa está a ser conhecida em Portugal através dos nossos goeses.

  2. Li pela segunda vez o perfil que Ivo Souza traça do Goês. Achei-o lirico, ‘wishful’, em demasia. Dos italianos- e há tantos deles emigrantes – se poderia dizer o mesmo .E eles o driam mesmo!

  3. Quando dei um sumário da personalidade do Goês, a sua Goanidade ou Goanismo, procurei ser genérico e enfatizei as suas qualidades. Não quis mencionar os pontos negativos. Os Italianos tem também pontos comuns, mas a individualidade cultural varia sempre. O Italiano é amável, assim também o Português. Mas há diferenças. Não pretendo entrar cá em detalhes e abordar outra temática.

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