Nós e Goa

Num programa do Prós e Contras sobre o estado da cidade de Lisboa, acho que em Maio do ano passado (visto no YouTube), Paulo Varela Gomes declara apaixonadamente a singularidade da capital portuguesa como património mundial, simbólico e imperial, e expõe violentamente o “regime podre” que a arrasou com a sua mesquinhez e provincianismo e assim se desresponsabilizou perante o mundo. “É preciso ter unhas para tocar esta guitarrinha”, insurgia-se.

Em vez de Lisboa, Varela Gomes poderia perfeitamente ter estado a falar de Goa e da forma com que Portugal tem lidado com aquele microcosmo na costa do Índico, português durante 451 anos, indiano desde a invasão de 1961. Acredito aliás que a violência apaixonada, frustrada e desiludida com que o professor de Coimbra denuncia a medíocre forma portuguesa de se relacionar com o mundo contemporâneo, e os danos irreparáveis que esta tem causado ao seu legado nos cinco continentes, é justamente influenciada pela sua experiência pessoal na Índia, onde foi delegado da Fundação Oriente em finais dos anos noventa (e o é agora novamente).

É compreensível. Um português que se preze e se preocupa com a imagem e o lugar de Portugal no mundo, só pode sair incomodado e envergonhado de Goa. O que de lá sai orgulhoso e realizado deixa-se iludir pela monumentalidade do património arruinado e da herança cultural lusófona em diluição acelerada, e pactua assim com a negligência crónica que afectou a nossa política para Goa, e a Índia em geral, desde o restabelecimento de laços diplomáticos com Nova Deli, em 1974.

O Portugal profundo não se vive nem se observa algures no interior continental, mas aqui longe, em Goa: uma política cultural desastrosa, pontuada por um sprint individual de um ou outro leitor camoniano mais dedicado e por boleias de fundações privadas como a Oriente ou a Gulbenkian; uma agenda diplomática quase sempre desorientada, sem nexo nem rumo, e com a imagem pública marcada por acusações gravosas à gestão da política de (re)aquisição de nacionalidade portuguesa; e finalmente um deserto imenso em termos de aproveitamento e promoção do potencial de um mercado de um milhão e meio de pessoas (muitos lusófonos na classe dirigente), situado estrategicamente numa das economias mais apetecíveis do século XXI. É deste oceano negro, repleto de inércia, incompetência e ignorância, que Paulo Varela Gomes parece beber quando se insurge contra o Portugal de hoje e reivindica um “novo regime”.

Há explicações e justificações, é claro, mas a retórica desculpabilizadora é sempre a mesma. Esta diz-nos que o colonialismo e a teimosia salazarista de 1961 nos obrigam a este intervalo, a esta distância, a esta passividade auto-infligida. Goa é um tema sensível, delicado, susceptível de evocar a ira e indignação indiana. Adormeçamos e esqueçamos. Contudo, este ensurdecedor silêncio e virar de costas supostamente purificador com que premiámos não só Goa, mas também a Índia inteira, teve o efeito totalmente oposto, entregando o potencial da relação histórica ao perigoso sabor do vento e do acaso.

Assim, alienámos largamente o capital de simpatia que não só os goeses, mas também os indianos em geral, nutrem por Portugal. Perante ocasionais protestos e pedidos de alguma inovação e sofisticação para moldar a relação de forma inovadora, para além do neo-colonialismo nostálgico, adaptando-a por exemplo aos requerimentos da globalização (ou emulando a estratégia francesa para Pondicherry), refugiámo-nos sempre no conforto da nossa condescendência patética e respondemos, cheios de altruísmo falso: que chatos, ó bastardos do império; olhem para Nova Deli e esqueçam Lisboa!

E assim tivemos o desastre de 1998, quinhentos anos depois. Do lado português, propostas ingénuas, talvez mesmo criminosas na sua ignorância e miopia cultural, para celebrar o glorioso “descobrimento” da Índia. Do lado indiano, como resultado imediato, a emergência de uma agenda política refém de nacionalistas hindus a exigirem perdão português e papal por tudo e mais alguma coisa, a começar pela Inquisição. Agora sim, a relação estava mesmo minada.

Mas olhemos para o presente e sejamos um pouco optimistas também. Há sinais recentes que são encorajadores. Um número inédito de turistas portugueses (dez mil, dez vezes mais do que nos anos noventa) banha-se nas praias de Goa e passeia-se pelo património mundial de Velha Goa, rodam-se telenovelas da TVI nos palacetes indo-portugueses, e há toda uma geração de jovens artistas e investigadores que se confrontam, de forma descomplexada, com uma sociedade goesa que naturalmente vive de emoções fortes, no interstício euro-asiático de duas civilizações e mundivivências diferentes.

Também já há vinho, cerveja e artesanato português nas lojas de Panjim e outros investimentos em vias de concretização. Graças a uma estratégia visionária, o Comité Olímpico Português demonstra que, no terreno, o desporto (o futebol, claro) é, por vezes, o melhor instrumento diplomático: Goa candidatou-se à organização dos Jogos da Lusofonia, em 2013. Finalmente, no nível bilateral luso-indiano, 2007 ficou marcado como um momento de ruptura com o passado, com as visitas de sucesso do Presidente (Nova Deli, Goa, Bombaim e Bangalore) e do Primeiro-ministro (Nova Deli, no âmbito da Presidência UE), sempre com os olhos postos no futuro. Será por todos estes sinais, porventura sintomas, que o heterodoxo historiador de Podentes se deixou convencer e decidiu voltar para Goa, para olhar Portugal de novo.

Constantino Xavier

In Revista Atlântico,  Março http://atlantico.blogs.sapo.pt/

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