Acordo Ortográfico – no SEMANÁRIO de 4 de Abril

O SEMANÁRIO aproveitou para antecipar os temas que serão abordados na XIV Semana Sociológica na Universidade Lusófona do Porto (7-9 de Abril), entrevistando o organizador do colóquio e membro da Academia Portuguesa de História e director-editorial da Revista Campus Social, Teotónio R. de Souza. A preocupação em estabelecer um modelo de ortografia advém desde o início do século XX, no entanto só agora é que Portugal mostra estar disposto a adoptar o “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”.

Na opinião de Teotónio R. de Souza esta situação deve-se ao facto de Portugal precisar dos mercados dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e também do seu apoio para marcar presença, mesmo que seja na UE. Sem acordo, Portugal poderá ver-se ultrapassado pelo Brasil e outros países da CPLP poderão ser aliciados por outros grupos linguísticos, como está já a acontecer no caso de Moçambique e a sua participação crescente na Commonwealth inglesa. Justifica, ainda, o atraso da implementação do Acordo pela “tradicional letargia e a vivência de dia-a-dia sem planeamento estratégico”, classificando os bloqueios institucionais como “a ressaca da mentalidade colonial em Portugal”. Deste modo, o pensamento que vigora é que “a mesma língua faz de todos único povo”, ignorando que os outros povos adoptaram a língua portuguesa por motivos meramente históricos, tendo as suas culturas e conceitos distintos, havendo, desta forma, a necessidade de criar novos vocábulos para transmitir realidades culturais e vivenciais diferentes.

 Para o especialista os erros que estão a ser cometidos na implementação deste acordo prendem-se com o facto de se ignorar as realidades culturais dos povos que mantêm as suas línguas tradicionais que vão certamente continuar a influenciar o português que adoptaram. Por exemplo, o inglês dos indianos na Índia nunca será o inglês no resto do mundo. Assim, o acordo ortográfico deverá ficar em aberto a essas influências culturais-linguísticas dos outros países e povos quando se pretende fixar um Vocabulário Comum.

Um problema linguístico ou político?

Actualmente presume-se que a língua portuguesa seja falada por 200 milhões de pessoas nos 8 países que constituem CPLP e na diáspora. É de salientar que é provavelmente a sexta língua mais falada no mundo. Perante a abrangência que comporta, é notável a necessidade da existência do Acordo, prendendo-se os seus problemas, segundo o presidente executivo da ACSEL, “com a especificidade da lusofonia, uma vez que ao contrário de anglofonia ou francofonia, Portugal é uma metrópole economicamente mais fraca do que as suas antigas colónias. Como tal deve ter a capacidade de ceder o protagonismo ao Brasil, Angola e Moçambique, que são os países com maior potencial de desenvolvimento ao nível mundial nos próximos tempos.” Refere ainda que “Portugal não tem capacidade económica para sustentar acções do Instituto Camões no mundo, nem para dar mais comida aos países pobres da lusofonia. Não basta ensinar como se deve escrever ‘comida’!”

 Diante de tal facto o papel do  Brasil na divulgação da língua portuguesa é fundamental tendo em conta os seus recursos e presença crescente no mundo globalizado. Teotónio R. de Souza encara o acordo assinado esta semana entre o presidente brasileiro Lula da Silva e o seu homólogo Hugo Chávez como “mais um exemplo dos avanços do Brasil, deixando Portugal arrastar-se e perder-se a longo prazo.”. Afirma também que se Portugal se auto-excluir da implementação do acordo, “a língua portuguesa continuará a crescer melhor e enriquecer-se sem os entraves dos portugueses convencidos.” 

Vantagens do acordo

 Para Teotónio R. de Souza as vantagens que o acordo trará ao povo português e a outras culturas serão “sobretudo o mais fácil relacionamento emocional e de cooperação económica ao nível global, destacando-se igualmente as implicações técnico-linguísticas que permitem a uniformidade da língua para os fins de tradução e publicações nos fóruns internacionais.”“Necessariamente com uma Ortografia e devido aos circunstancialismos históricos, com um Acordo Ortográfico, que também essencialmente acontecerá com ou sem os Portugueses, mas neste último caso para mal, vergonha e desgraça de todos os que, com o já designado síndroma salazarista de Badajoz, continuarão a dar razão às tristemente célebres atitudes e palavras do ditador “orgulhosamente só”!” remata Fernando dos Santos Neves, presidente do Conselho Geral do Grupo Lusófona e reitor da Universidade Lusófona do Porto, e o pai-fundador das Semanas Sociológicas. 

Deste modo, Teotónio R.  Souza espera que no final da XIV Semana Sociológica, se consiga chamar a atenção aos desafios da língua portuguesa na História do Futuro. Salientando que “o que deve interessar a todos é a língua portuguesa, e não a língua à portuguesa.”

 

João P. Pinheiro da Costa

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