Vieira, Godinho, Império em colapso, Quinto Império

Pe. Manuel Godinho, da vila do Montalvão, entrou na Companhia de Jesus em Coimbra aos 15 anos de idade em 1945. Foi destinado às missões da Índia, para onde seguiu em 1655. O vice-rei da Índia, D. António de Mello de Castro, que conhecia melhor as implicações da cessão de Bombaim aos ingleses de acordo com o tratado de casamento da D. Catarina de Bragança com o príncipe Carlos II da Inglaterra, procurou atrasar a entrega daquela região durante vários anos e enviou o jesuíta Pe. Manuel Godinho, autor da Relação do Novo Caminho Que Fez por Terra e Mar Vindo da India para Portugal no Ano de 1663, para a corte de Lisboa com um regimento em que lhe dava instruções sobre com quem devia falar e o que devia transmitir. O tratado de casamento não definira a extensão geográfica de Bombaim tal como os ingleses a queriam entender. O jesuíta chegou a Lisboa em 1663 com a missão confidencial de explicar à corte portuguesa que uma cessão tão abrangente punha em causa a sobrevivência do comércio português na Índia e a própria sobrevivência do Estado da Índia. O vice-rei concluía o seu regimento dizendo que se o rei quisesse mesmo avançar com a cessão de maneira como os ingleses a pretendiam, que fosse enviado outro vice-rei para o fazer. Ao contrário do que aconteceu com Vieira, Manuel Godinho foi expulso da Companhia de Jesus em 1667 por ter-se envolvido directamente em negócios políticos que podiam provocar uma retaliação do governo inglês contra a Companhia de Jesus, e por ter recusado regressar à Índia. Do que se lê no seu relatório publicado (já com 4 edições em Portugal e uma edição recente em inglês na Índia) de viagem por terra, transparece o seu fervor patriótico, bem como a sua amargura de ver em decadência a glória e o poderio do seu país. Mas isto não obstava que ele denunciasse os crimes, as malfeitorias e outras acções pouco dignas, praticadas pelos governantes da Índia ou responsáveis do reino.

Ao contrário da tolerância que a Companhia teve para com Vieira, constrangida obviamente pela protecção especial que gozava de D. João IV, a mesma sorte não teve Pe. Manuel Godinho, embora a rainha regente e o príncipe D. Afonso VI, foram benévolos e compensaram os seus serviços para a nação com a melhor paróquia vaga, que aconteceu ser de Loures. Morreu em 1712 com 78 anos de idade. Deixou várias outras publicações para além da sua Relação da viagem por terra, e vai aqui  um pequeno excerto para ficarmos com alguma ideia daquilo que preocupava também o Pe. Vieira: “Está o Estado da Índia tão velho que só o temos por estado. E se não acabou de expirar foi porque não achou sepultura capaz de sua grandeza. Se foi árvore é já tronco; se foi edifício, já é ruína; se foi homem, é já cepo; se foi gigante, é já pigmeu; se foi império, pereceu; se foi vasto, está limitado; se foi muito, não é já nada; se foi viso-reinado da Índia, já o não é mais que de Goa, Macau, Chaul, Baçaim, Damão, Diu, Moçambique e Mombaça, com outras fortalezas e terras de menos importância; relíquias enfim, e essas, poucas, do grande corpo daquele Estado, deixadas por nossos inimigos, ou para memória do muito que possuímos na Índia, ou para mágoa, considerado o pouco que nela temos agora. Sirva-se Deus de que possamos dizer do presente governo de Sua Magestade o que dizia Floro do seu Trajano, que remoçara o império romano, velho dantes e acabado: “Sub Trajano príncipe praeter spem omnium senectus imperii quasi reddita juventute revirescit“. Vieira acompanhara de perto os assaltos dos holandeses no Brasil, e através da sua História do Futuro desejava o mesmo que o Pe. Manuel Godinho para o Estado da Índia. O «futuro» a que se referia Vieira nas “Esperanças de Portugal: Quinto Império do Mundo” (29 de Abril de 1659), não era um futuro distante. Procurava era animar os Portugueses para colaborar com o destino para o qual Deus os elegera, para levarem a bom termo a missão que Deus lhes incumbira. Embora citando Jesus nos Evangelhos: Non est nostrum noscere tempora vel momenta quae Pater posuit in sua potestate, não hesitava deixar a sua conjectura que previa O Quinto Império “na era de sessenta” dos seiscentos, referindo ao número emblemático 666 do Apocalipse.

 

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