O Desacordo Ortográfico e o Luso-Centrismo denunciados na Universidade Lusófona do Porto

  Encerrou-se hoje a XIV Semana Sociológica na Universidade Lusófona do Porto. A participação da empresa Priberam através da sua investigadora-técnica Dra. Helena Figueira que tabalha na produção de software para o novo corrector electrónico no contexto do acordo ortográfico foi particularmente interessante na sessão em que se tratou dos aspectos técnico-linguísticos do proposto acordo. Houve intervenções de tradutores de textos literários e técnicos, bem como de uma professora revisora da Revista Lusófona de Humanidades e Tecnologias, n.12, que vai ser lançada na próxima semana respeitando as regras propostas no novo acordo.

No decurso da manhã de hoje foi debatido o Acordo Ortográfico e as suas implicações / consequências políticas e geo-estratégicas. Moderando a sessão, o Professor Doutor Fernando Santos Neves, reitor da Universidade Lusófona do Porto, comentou acerca de afirmações atribuídas na imprensa ao Dr. Vasco Graça Moura, na sua intervenção consultativa na Assembleia da República, sugerindo que, caso se avançasse com o acordo, Brasil seria o maior ganhador e uma ameaça para os interesses portugueses. Professor Santos Neves achou essa declaração (se foi mesmo pronunciada pelo Dr. Vasco Graça Moura) ridícula, e acrescentou: Brasil tem sido muito generoso em manter a designação da sua língua oficial na Constituição como Língua Portuguesa! Caso Portugal continue a sua vã retórica, Brasil poderia muito bem alterar a sua Constituição, e declarar que a sua língua é brasileira! A língua portuguesa poderá então cair para o nono lugar na escala internacional dos falantes. Segundo umas estatísticas actualizadas e apresentadas pelo interveniente Prof. Doutor Francisco José Magalhães, o português já neste momento ocupa 8º lugar, e não 6º como muitos pensavam.

Na maioria das intervenções, incluindo a do ministro-representante da CPLP, Dr. Paulo Palme, foi chamada a atenção à confusão que se criou entre a uniformização ortográfica e a uniformização léxica-semântica. Outra ideia-chave que dominou o debate foi a necessidade de se respeitar as mundivisões culturais e as correspondentes  diferenças lexicais e semânticas no mundo lusófono, que não deve ser reduzido ao Brasil e a Portugal, nem mesmo com os restantes 6 países da CPLP.

A XIV Semana Sociológica começou com a apresentação do filme «Palavra e Utopia» do realizador Manoel de Oliveira, com comentário da Prof. Olga Iglésias e da Dra. Carolina Iglésias Martins. A conferência do encerramento foi também uma evocação do Padre António Vieira, pelo Professor Doutor Teotónio R. de Souza, Sócio da Academia Portuguesa de História e Presidente-Executivo da ACSEL (Associação dos Cientistas Sociais do Espaço Lusófono), responsável pela organização da Semana Sociológica, marcando assim o 4º centenário do nascimento dessa grande figura luso-brasileira de Lusofonia. A conferência salientou a visão lusófona da cultura e humanismo tal como reflectida na História do Futuro,  que o Padre António Vieira considerava ser a sua obra mais importante do que os seus Sermões.  Nessa sua História inconclusa, mas cujo ante-projecto intitulado Esperanças de Portugal – Quinto Império do  Mundo, enviado em forma de carta a André Fernandes, bispo de Japão, em 1659, já dava a entender a missão que faltava a Portugal cumprir para realizar plenamente o que ficara incompleto após os Descobrimentos. O Quinto Império seria a realização de paz e harmonia universal sob a égide portuguesa e da Igreja romana.  O orador contextualizou as preocupações do Pe Vieira em mobilizar os portugueses com a urgência que se requeria para garantir a sustentabilidade da nacionalidade restaurada em 1640, mas que continuava a ser fortemente ameaçada pela Grifa parideira (Castela) e não só. O conferencista colocou Vieira na esteira dos outros grandes autores portugueses desde João de Barros e Fernando Oliveira até Pessoa e Agostinho da Silva, que privilegiam o luso-centrismo dos portugueses como um povo eleito, e concluiu que na nova globalização da sociedade em rede,  não podia haver lugar para centrismos de qualquer tipo. A presunção de ser «povo eleito» tem causado as desgraças do povo judeu, e assim será dos que atribuem a si tal monopólio — Uma graça para desgraça! O comportamento de Portugal perante o Acordo Ortográfico parece reflectir aquilo que se dizia dos Bourbons, nomeadamente, que nada esquecem e nada aprendem! Nem a República (que criou o Desacordo ortográfico com uma decisão unilateral) nem a Democracia pós-25 de Abril parecem ter ensinado algo de novo!

2 pensamentos sobre “O Desacordo Ortográfico e o Luso-Centrismo denunciados na Universidade Lusófona do Porto

  1. A utopia do “Quinto Império” não é apenas a reedição das utopias medievais da “republica cristã”, num contexto comum ao projecto missionário da Companhia de Jesus. É, sobretudo, um aproveitamento político, para a afirmação da Independencia Nacional e, nesse sentido, uma arma ideológica poderosa, capaz de legitimar Portugal, mas, sobretudo, de afirmar a nossa individualidade face a Espanha.
    Há 400 anos, como agora, esta agenda existe. E, de algum modo, o que fica de relevante desta XIV Semana Sociológica, para além do trabalho académico produzido, é o compromisso de criar novos instrumentos de afirmação da lusofonia e da defesa da lingua, como a Academia Lusófona da Lingua Portuguesa e o Prémio Lusofonia.

  2. A XIVª Semana Sociológica correspondeu às expectativas da organização, isto essencialmente pelas seguintes razões: 1º. Análise séria e rigorosa do Acordo Ortográfico; 2º. Divulgação junto da academia universitária e da comunidade; 3º. Conclusões que incentivam à continuação das semanas sociológicas, nomeadamente: a criação da Academia Lusófona de Língua Portuguesa; a instituição de um Prémio da Lusofonia, tendo sido sugerido o nome do Prémio António Vieira; aplicação nas revistas do Grupo Lusófona das regras do Acordo Ortográfico. Como bem disse o Magnífico Reitor da Universidade do Porto, Fernando dos Santos Neves: “Façamo-lo”.

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