Goa em 1956: Relatório de Orlando Ribeiro

   “Em termos gerais, e salvo algumas excepções que ressalva, «a província de Goa», surgiu-lhe ( a Orlando Ribeiro) como «a terra menos portuguesa de todas as que vira até então». E explica detalhadamente porquê, tomando como tópicos o «desconhecimento geral da nossa língua», a «persistência de uma sociedade estranha e indiferente, quando não hostil à nossa presença», a limitada influência portuguesa «encerrada como um quisto no flanco do hinduísmo renascente» ou o predomínio dos sentimentos autonomistas ou pró-indianos sobre o «patriotismo português». Não se inibe de lamentar as deturpações da propaganda oficial (a manipulação falsificatória das estrofes dos Lusíadas, a referência errónea a uma «maioria cristã», a alusão à duração da presença portuguesa na Índia…), ou verberar os casos de «corrupção», «prepotência», «exorbitação da autoridade», «parcialidade», imputados às autoridades portuguesas que encontrara envoltas em ambiente de «suspeição e delação» e de algum «nervosismo».  Para o leitor de hoje, dir-se-ia que, fosse por erros históricos da colonização portuguesa no lidar com a complexa sociedade indiana, fosse por características de fechamento e de nacionalismo anti-ocidentais próprias desta ou por ela desenvolvidas, Portugal «perdera o pé» na índia, desligara-se política, social e culturalmente do «escol» indiano sem criar outro que lhe fosse fiel, não estando à vista, salvo medidas pontuais, uma solução fácil para os desafios que colocava a pressão da União Indiana.” [ Prefácio de Fernando Rosas, pp. 23-24]

………

    “Ao contrário do Brasil, onde tantas famílias ilustres ou humildes entroncam numa ascendência lusitana, que timbram em reconhecer, a par de uma frequente mestiçagem; ao contrário de Cabo Verde, cuja população crioula está sentimentalmente tão perto de nós, porque os antigos escravos africanos absorveram na verdade o sangue do seus brancos, os goeses conservaram a pureza da sua casta, mas revelam uma surpreendente assimilação dos nossos usos e maneiras de ser. Aqui a mestiçagem foi apenas de ordem espiritual. Custa a crer que não corra nenhum sangue português nas veias da nobreza rural de Salcete ou das antigas famílias cristãs de Margão.  Os salões dos seus palácios, as camas de dossel, a vida patriarcal da família, tutelando numerosa criadagem, a cortesia um tanto reservada com que sabem receber, a presença discreta das senhoras da casa, a conversa que decorre sobre os nossos escritores e a vida provinciana que eles revelaram a quem nunca saiu de Goa, tudo evoca horizontes distantes da tradição portuguesa. Onde estamos? Na índia ou no Brasil, nos Açores ou em Cabo Verde, ou ainda entre velhas famílias da nossa aristocracia mais provinciana e mais autêntica?! Assim, não surpreende que o filho da casa graduado por uma Universidade portuguesa, ocupe algures, no Ultramar ou na Metrópole, lugar de relevo: tão português na aparência, nos modos e na expressão, que a sua origem de uma raça estranha facilmente passaria despercebida, se não fosse o sotaque especial, o cabelo negro e corredio e o tom bronzeado da pele” [pp. 29-30]

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   “Conhecendo razoavelmente todas as Ilhas Adjacentes e tendo escrito um livrinho sobre a Madeira, havendo visitado todos os territórios portugueses da África, desde Moçambique, e estudado com profundidade a Guiné e algumas ilhas de Cabo Verde, tendo viajado quase quatro meses pelo Brasil e observado alguns dos seus recantos mais sertanejos, sabendo alguma coisa do mundo muçulmano, já pelos estudos árabes da minha juventude já por viagens em Marrocos, no Egipto e na África Ocidental, possuía assim uma perspectiva ampla ao iniciar as investigações na província de Goa. Esta apareceu aos meus olhos como a terra menos portuguesa de todas as que vira até então, menos portuguesa do que a Guiné, pacificada em 1912! O desconhecimento geral da nossa língua, a persistência de uma sociedade estranha e indiferente, quando não hostil, à nossa presença, a limitação da nossa influência, encerrada como um quisto no flanco do hinduísmo renascente, fizeram-me olhar Goa com uma grande decepção.” [pp.64-65].

[Acho infelizes as seguintes linhas de auto-comiseração no final do Relatório – Observação do coordenador deste blogue  

  “No entanto, os goeses cristãos, nos mandós (canções) ou no teatro, entregam-se à protecção de São Francisco Xavier mas não têm uma palavra de simpatia ou de agradecimento por aqueles que aqui vieram defender a integridade do seu território, o sossego dos seus lares e o livre exercício das suas crenças. A gratidão não é o seu forte. Termos de dar muito, contando receber bem pouco…”  

   “Quando, há vinte e três anos, tomei parte num cruzeiro de férias às províncias do Atlântico, ficou-me a lembrança de simpatia, de caloroso acolhimento, que ao português era reservado pelas populações africanas. Permanências mais largas na Guiné, em Cabo Verde, em São Tomé, só vieram confirmar as impressões daquele primeiro e rápido contacto. Aqui, pelo contrário, domina a prevenção, a desconfiança. Quando não antipatia mais ou menos declarada.” [p. 132]

 

Ler mais em: http://histheory.tripod.com/OR.html

               

 

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