GOA: LEMBRANDO O LAVRADOR DE PALMEIRA

 

Ao saber que o Padre Ave Maria Afonso, meu ex-aluno no Seminario Patriarcal de Rachol, Goa, publicou o livro Rendermam’ Ani Tachem Jivit (O Lavrador de Palmeira e a sua Vida), lembrei-me do lavrador que via com os meus olhos quando eu frequentava a escola primária de Reis Magos (Verém). Este livro foi lançado na cidade de Margão durante uma função organizada para celebrar o primeiro aniversário da revista em Concani, Jivit (A Vida), editada por um outro ex-aluno meu, Miguel Gracias.

É interessante conhecer a vida do tradicional lavrador de palmeira (render, toddy-tapper), como também do padeiro (poder) e do pescador (pagi). Nós precisávamos na nossa vida de dia em dia do lavrador de palmeira como também do padeiro e do pescador. Pois não podemos imaginar vida sem pão diário, sem peixe-caril, sem (talvez não valha isso para cada um de nós, sobretudo para mim) um copito de feni. Não podemos imaginar as nossas festas sem sandanás (san’nam) e sem nossos pratos que nos deleitam e nos trazem saliva à boca como o sarapatel (sorpotel) e chouriços, vindaloo, pará de peixe e mole sem vinagre.

Os nossos pescadores e operários vão à taverna sempre às tardes para um copito de feni ou urraca. O lavrador de palmeira (rendermam’) andava com o seu calão de barro (kollso), media o grau de feni, metendo o alcolímetro na garrafa, para ver o grau 18, e então pagava o devido. Após um dia de trabalho árduo, ele tomava o seu copito (kopin) de feni à noite antes do jantar (ceia). Ou às vezes ia também a outros bares da aldeia com os seus companheiros para tomar dukhsiri, ou seja, um cocktail estranho de feni e de raízes medicinais. Era para aqueles que labutavam e suavam nos campos e nas várzeas, uma bebida refrescante e estimulante, como vodka, sem deixar traços do mau odor. Para estarem mais seguros, os amigos lhes davam cravos que eles iam mastigando alegremente no seu caminho para casa. Todos estavam alegres, eles e as suas esposas.

Este livro é um tesouro de informação. Era edificante ver o lavrador a fazer o sinal da cruz antes de subir a palmeira. Era curioso o processo de destilação do feni. Estes e outros detalhes estão bem descritos no livro.

Neste mundo dominado por ‘machos’ era estranho ver uma senhora de Vernã a subir a palmeira para extrair sura. Lembro-me como uma vez bebi sura quando um lavrador de palmeira desceu em Galgibaga com o vaso de barro e paguei-lhe uma rupia só para um copo.

Com fotografias coloridas, o livro Rendermam’ ani Tachem Jivit é uma excelente contribuição em Concani no alfabeto romano. Saltando duma palmeira à outra, três vezes ao dia, o arrendatário levava vida solitária. Sentado sobre a ola, com o foice (kati) e o vaso de sura (dudinem) e o vaso de argila (damonnem), o poeta nado canta:

Se pensar na vida nossa

Treme o corpo da gente;

Subir e descer do coqueiro

Esta é a vida do rendeiro!

(Jivit chintlear
amchem,

Xirxirta ang
lokachem.

Maddar choddun
denvpachem,

Jivit amchem
Rendranchem!)

É vida difícil e arriscada a do rendeiro. O lavrador da palmeira é uma pessoa fascinante.

Ele recita o rosário diário, e juntamente com os vizinhos e amigos canta a ladainha (ladin) de Nossa Senhora, assiste à Missa com a sua comunidade inteira no ultimo Domingo de Fevereiro na Basílica de Bom Jesus, na Velha Cidade. Como qualquer Goês de sangue (niz Goenkar), ele ama o desporto, em particular o futebol, e adora o teatro (tiatr e khell-tiatr). O seu pequeno almoço consiste de canja (pez), com caril de ontem (kalchi koddi) e peixe salgado (kharem nustem). Ele gosta de ouvir discos de música concani. Ele joga com cartas, jogo aleatório (moddko, matka) e por vezes esbanja todo o seu dinheiro em tais vícios. Mas agora ele dirá: “Ami tras-koxtt kaddtat te puro. Amchea bhurgeank tem naka”, quer dizer, “Basta que tenhamos passado por maus bocados e sofrimentos, não queremos o mesmo para os nossos filhos”, expressando os sentimentos da comunidade inteira. A populacão de lavradores de palmeiras (toddy-tappers) está dràsticamente reduzida de 22,000 em 1964 a só quase 1,100 em 2006. Soa a hora da morte: esta profissão vai quase desaparecer. Este livro é um rico repositório de informação e uma “janela” para o nosso passado encantador!

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