Origem cerimonial do Cante, o canto colectivo do Baixo Alentejo

O Cante, como é localmente designado o canto colectivo alentejano, tem merecido renovada atenção dos poderes públicos locais e nacionais. Género vocal de âmbito colectivo, esta forma de música tradicional apresenta uma história que é noticiada e documentada desde finais do século XIX.

Definido como um “repertório de modas, versos rimados cantados polifonicamente, em forma estrófica, por grupos corais sem acompanhamento instrumental”, os primeiros documentos conhecidos sobre esta forma de canto datam de finais do século XIX, documentos onde vem enfatizada a impressão estética produzida pelos cânticos alentejanos entoados nas arruadas.

Já na primeira década do século XX, Michel’Angelo Lambertini refere os cantos a duas vozes entoados informalmente às esquinas da vila de Serpa. O autor, no mesmo passo em que refere o carácter cerimonial, solene, “qualquer cousa que nos traz a inesperada  nota d’um canto de peregrinos ou de um côro calvinista”, dá-nos também notícia de um outro elemento característico desta forma de cantar: “A maior parte das vezes uma voz aguda (…) expõe um motivo, adornado não raro de garganteios e grupettos de pura origem árabe. Dita essa primeira phrase a solo acode o coro com a terceira inferior ou com a nota que mais convém ao registo vocal de cada um (…).

Ao referir, a título de exemplo, os cânticos de peregrinos e os corais da igreja calvinista, e depois afirmar a natureza árabe dos ornamentos produzidos pelos solistas, Lambertini dá o mote para uma das questões até hoje não resolvidas no estudo desta forma de canto colectivo tradicional: o da sua origem, e o dessa origem poder estar relacionada com uma prática de âmbito litúrgico.

A questão foi, ao longo do século passado, objecto de acesa controvérsia. O Padre António Marvão defendeu a tese da origem desta forma de canto poder estar associada ao antigo cantochão, remetendo a dimensão polifónica, que resulta do canto a terceiras paralelas, a reminiscências das polifonias arcaicas, o que concorreria também para a colocação da origem deste canto na liturgia cristã.

Mas a hipótese da origem árabe teve também os seus defensores. E, se não colheu aceitação naqueles mais tentados a uma análise musicológica comparada, não deixou, por isso, de ser uma hipótese resistente, havendo quem a defenda argumentando com a forma de cantar (nomeadamente dos solistas), autorizados por dois critérios também relevantes: a acuidade auditiva e a competência prática.

Numa perspectiva diversa às hipóteses antes referidas, de uma filiação à liturgia cristã, pelas semelhanças que se extraem na comparação destes cantos com os antigos cantos sacros, ou de uma influência árabe, pela maneira de ornamentar o canto, sobretudo das partes solísticas, ou mesmo de uma sobreposição destas, numa próxima ocasião, apresentarei alguns argumentos que seguem a correlação do canto colectivo do Baixo Alentejo com práticas cerimoniais judaicas.

 

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