CEUTA: A PARTIDA PARA OS DESCOBRIMENTOS

 

 

 

Naturalmente que para o empreendimento, que Portugal inicia com a conquista de Ceuta em 1415, concorre um conjunto diverso de causas, umas mais próximas e outras com início num período muito longínquo, remontando praticamente ao começo da nacionalidade.

No número das primeiras pode salientar-se a  forma como foi solucionada a crise de 1383-85, da qual saiu uma classe burguesa pujante e uma nobreza jovem ávida de afirmação; nas mais remotas, sem dúvida, a configuração geográfica do país, com  uma zona costeira de grande extensão,  que lhe incutiu uma vocação marítima;  e, ainda,  o longo processo evolutivo da classe de mercadores, internos e externos,  que, com as trocas de produtos, utilizando, sobretudo,  as rotas marítimas, percorreram o Atlântico, o Mar do Norte e o Mediterrâneo, carreando conhecimentos técnicos e científicos da maior valia.

Mas porquê Ceuta?

Era conhecida no país, desde longa data, a importância de Ceuta no contexto dos territórios vizinhos.

Desde muito cedo que foram estabelecidos os primeiros contactos pelos mercadores portugueses interessados no comércio da costa marroquina. De resto, esse interesse era recíproco. A fruta do Algarve era vendida para o outro lado do mar e paga em ouro, como informa Zurara. Mas não só por essa via se adquiria o conhecimento sobre Ceuta. Ele chegava, igualmente, por outras fontes, pelos mercadores mediterrânicos e peninsulares que mantinham relações com o Magrebe.

Sabia-se que, desde os secs. XI e XII, os muçulmanos realizavam incursões até ao sul do Continente na procura de ouro e de especiarias e sabia-se também que eles, no séc. XIII, conheciam bem e tinham acesso aos mercados auríferos afro-sudaneses

No início do sec. XIV, os muçulmanos detêm uma vasta rede de feitorias destinadas ao comércio desse metal, existindo já um conjunto de mapas assinalando os principais caminhos e escalas utilizados pelas caravanas.

Um desses caminhos  ligava Messa a Ceuta, abrangendo um conjunto de cidades da costa atlântica, designadamente Marraqueche e Fez. O ouro e as especiarias eram as mercadorias dominantes.

Mas outras rotas se impunham: umas por via terrestre, vindas do Oriente através da costa mediterrânea do norte de África, outras marítimas, mais importantes ainda, que desembocavam em Ceuta.

Esta situação era do perfeito conhecimento da classe dirigente portuguesa informada de que, igualmente,  a região possuía condições únicas em termos agrícolas, com  abundância de cereais, plantas têxteis e industriais,  açúcar,  gados e seus derivados, produtos que os portugueses cobiçavam, para além do comércio de escravos e de especiarias, do domínio das rotas do comércio e do controle da pirataria marítima.

A importância deste conjunto de factores encontra-se bem sintetizada por Zurara num texto escrito após a perda de Ceuta: “Quais de nós acharão agora, quando se alevantarem de suas camas as bestas carregadas dos panos de seda que nos vinham da cidade de Damasco, ou as casas cheias de pedras preciosas dos da Comunidade de Veneza, ou os grandes sacos da especiaria, que nos vinham dos desertos da Líbia”.[1] 

A nobreza e o clero viam na conquista de Ceuta a satisfação das suas necessidades e aspirações, uma forma de afirmação.

Enfim! Ceuta seria a solução ideal para muitos dos problemas de ordem política, económica e social com que Portugal se debatia.

Mas, Ceuta ganhava importância também por outras razões: Era necessário contrariar as tendências de Castela que vinha demonstrando interesse na tomada de posições na área do Atlântico, pretensão que se encontrava já na base dos conflitos ligados à posse das Ilhas Canárias, facto que fazia perigar o objectivo prioritário que era a busca dos caminhos do Sul.

Devem ainda destacar-se, pelo seu contributo em termos anímicos, os inúmeros  sinais de aprovação recebidos do exterior. De Roma veio a solidariedade papal como se de uma nova cruzada se tratasse; dos centros comerciais e económicos bem conhecidos dos mercadores portugueses, da Galiza e Biscaia, de Inglaterra, da Flandres e da Alemanha chegam também manifestações de concordância expressas no envio de barcos e outros meios. A operação, afinal,  era do interesse de todos eles!

É tudo isso que leva Portugal a partir para a descoberta de novos mundos, dando início à tão ansiada expansão europeia, que estabelece o ponto de partida de um novo período da História, a Idade Moderna.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 

OLIVEIRA, Aurélio – “Antecedentes: A Expansão Comercial”, in História dos Descobrimentos e  Expansão Portuguesa,  Lisboa, Universidade Aberta, 1999. pp. 15 – 60.

SANTOS, José Loureiro dos – “Causas da Acção Estratégica” in Ceuta.1415. A Conquista, Lisboa, Prefácio, 2002, pp. 40-48.

 

José Maria Mendes

]

 

 


[1]  Citado por OLIVEIRA, Aurélio. In “História dos Descobrimentos e  Expansão Portuguesa”. Lisboa: Universidade Aberta, 1999. p.  55.

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