GOA: Novidade Lusófona

Alegrei-me em ler o título “Casa Grande”, livro de Leopoldo Rocha, que foi meu professor no Seminário Patriarcal de Rachol, Goa, India. Quando estive em Lisboa, não pude encontrar-me com ele. Soube mais tarde que trabalhava como Assessor Principal da Biblioteca da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa. Enviei-lhe o Anuário do Seminário de Rachol de 1987-1988, quando o editei por ocasião do Ano Mariano. Não possuo o novo livro Casa Grande. O Autor procura pintar a sociedade goesa do seu tempo. É interessante saber como o goês evoluiu no processo da simbiose de duas culturas: indiana e portuguesa. Seria interessante ler livros deste calibre. Entretanto, cheguei a ler artigos sobre a personalidade do goês. Eis os traços rápidos que podemos dar acerca dos goeses.
Em que consiste a individualidade do goês? Esta é uma pergunta que ocorre ao goês quando se vê que Goa está a ser devastada por elementos que deturpam a nossa imagem.
A personalidade do goês é um paradoxo: gosta da música como também de chouriços; pensa na casta enquanto está em casa, mas é um cosmopolita no estrangeiro, sabe viver em qualquer parte que vá. Marca a sua individualidade em todos os cantos e recantos do mundo. Tem afeição no seu coração a Goa em qualquer parte que esteja. Gosta de ouvir e de falar a sua língua-mãe. O goês é capaz de se adaptar em qualquer parte: na cozinha, no hotel, no gabinete, na sala de aulas.
A sua cultura é uma simbiose do oriental e ocidental. Vive entre dois mundos diferentes. Acarreta as suas tradições e costumes onde for. Leva o seu pendor para música para todos os cantos do mundo. Ele tem o condão de ser tudo para todos, contudo nunca cessa de ser goês. Quando saboreia um copo de Scotch, não se esquece do seu Feni e de sorpatel. Ele pode comer com talheres ou com as suas mãos. O goês gosta de festas e sestas (fiesta y siesta), como também de iguarias refinadas e pratos esquisitos. Gosta do vinho, liquor, queijo, cigarro. Gosta de ditados em concani e de poesia. Louva os seus heróis, os seus santos, os seus antepassados.
Gosta de hospitalidade, de jovialidade, de bom humor. Gosta de entreter uma audiência. Lembra-se da fruta da estação: manga, jaca, jambulão, jagoma, pera, jambo, cajú, churnas, carandas, chicús, papaias, melancias, melões. É bom actor, gosta de dramatizar. Lembra-se do ‘teatro’ popular. Respeita a sua religião.
É poliglota, gosta de aprender línguas. É pacato, não gosta de frenési. Gosta de futebol.
Talvez gosta de “dolce far niente” (doce ócio). Tem ambição, mas não é bom comerciante. O goês cultiva mais os valores de amizade, camaradagem, benevolência, em vez de competição e comercialismo.
Com lindas paisagens ao redor, o goês desenvolveu susceptibilidade emocional, que exprime mais na música do que nas artes plásticas. Pois a música é lingua-mãe de sentimentos, enquanto a arte plástica demanda tirocínio mais árduo. Ele exprime a sua nostalgia ou saudade e vivacidade no canto folclórico, particularment no mandó. Patético e vibrante de alegria, ele canta no mandó as memórias do seu coração goês. A pintura goesa é marcada com encanto e intensidade dramática. O goês é tenro, sonhador, melancólico, fogoso, apaixonado. O folclore goês representa união de tema indígena com a harmonia occidental. Vivendo em simpatia íntima e vital com a natureza, o goês tem singular graça de movimento que se exprime admiràvelment na dança. Ele pode dançar valza ou qualquer outro movimento apressado ou lento, como é o seu génio, vagaroso e emocionante.
O goês é sossegado, vagaroso, lento, calmo, contagioso no seu entusiasmo (joie de vivre).
Rodeiado de natureza, palmar, coqueiral, arecal, várzeas, praias. Ele vê o verdor das montanhas, sente a brisa, a beleza da floresta cerrada, a alvura da areia das praias, o azul das águas do mar.
O goês pode visitar qualquer país, não sentirá o choque cultural, porque se sente à vontade em qualquer parte do mundo. Sons bucólicos de animais tem suave música para o seu ouvido. O goês é conhecido como ‘o sal da terra’, com as suas qualidades: genialidade, efusão, exuberância, expansão. A sua personalidade nao deixa de ter sombras… Creio que Goa está a ser conhecida em Portugal através dos nossos goeses.

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