Para a história de uma certa Censura

Em Dezembro de 1992, a categorizada revista Indian Church History Review publicava um artigo meu intitulado “What the chronicler missed about Santa Monica of Goa : the untold story of a rebellion (1730-1734”). O artigo original fora escrito em português e traduzido para inglês pelo meu querido amigo, o conhecido historiador com projeção além fronteiras, o Prof. Teotónio R. de Souza. Nada de extraordinário aqui. Curioso é o tortuoso curso, com paragens e arranques, que levou a publicação desse artigo. Não fosse o espírito generoso e abertura duma visão liberal, que sempre animou este historiador, então jóvem, julgo que me teria esmorecido a coragem de ver aquele meu escrito publicado no original, em português.
Embora a alguns se afigure pedante ou vejam em mim o intuito de dar publicidade àquele meu estudo, desejo historiar as vicissitudes por que passou a publicação do referido meu trabalho. Encontrrá assim o leitor a prova mais que suficiente de que, mesmo depois de 25 de Abril, que aboliu em Portugal toda a censura para a livre expressão de ideias, uma certa espécie de constrangimento, derivada de respeito que a forte doutrinação católica, não evoluída, incutiu nos seus fiéis, ainda limita os editores, mesmo de revistas especializadas, a travar a publicação de escritos que ponham uma mancha no nome dos seus chefes hierarquicos como bispos, arcebispos ou cardeais. Para esclarecimento prévio do leitor, direi que o meu artigo descrevia um caso amoroso ocorrido entre um Arcebispo de Goa e uma freira, provavelmente mestiça, do célebre convento dde Santa Mónica de Goa, no segundo quartel do século XVIII. E não era só isso. Reconstituia o clima ou quadro das relações na altura existentes, entre o poder político e a Igreja, esta ancorada no Arcebispo e Ordens Religiosas. Era um escrito apoiado em fontes de primeira mão, solidamente documentado. Certamente a publicação deste artigo seria impensável no tempo da velha Senhora, o chamado Estado Novo, durante o qual vivi a maior parte da minha vida. Então, encontravam-se o Estado e a Igreja Católica unidos em Portugal num conúbio francamente incestuoso. A minha memória recuava para o tempo em que eu, jóvem estudante no Seminário de Rachol (Goa) , seria, muito provavelmente, o único leitor de uma revista americana, católica, de orientação liberal, dirigida unicamente por leigos católicos. Por certo que o Reitor do Seminário de Rachol, um fundamentalista, nunca permitiria na biblioteca do Seminário a exposição deste periódico, caso suspeitasse da orientação editorial dela. A revista em questão chamava-se ( e ainda se publica ) “Commonweal”. [continúa]

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