Uma democracia via aérea e tropa americana – Peter Sloterdijk

http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,1526330,00.html

Peter Sloterdijk  esboçou um produto instantâneo ideal para propagar a cultura política do Ocidente em todo o mundo: um Parlamento inflável que pode ser lançado via aérea, a fim de instaurar a democracia com a maior rapidez possível nos “Estados delinqüentes” que tenham acabado de ser subjugados.

O Parlamento com capacidade para 160 deputados pode ser transportado num único contentor, oferecendo todas as condições necessárias para o processo democrático dentro de apenas 24 horas, excluindo o tempo de vôo. No entanto, sem um empurrãozinho das Forças Aéreas norte-americanas, o sucesso do empreendimento seria impensável. Afinal, ironiza Sloterdijk, os americanos já mostraram “grande êxito no emprego da democracia via aérea”.

Missionarismo democrático do Ocidente

Com esta instalação de Sloterdijk, a mostra Making Things Public: Atmosferas da Democracia, recém-inaugurada no Centro de Arte e Tecnologia de Mídia (ZKM), de Karlsruhe, contrabandeia entre as obras de arte o discurso de um polêmico pensador contemporâneo alemão. O interesse dos curadores Bruno Latour e Peter Weibel era justamente “encontrar novos caminhos para se refletir sobre política e desenvolver procedimentos que possam levar a uma nova forma de trabalho entre artistas e teóricos”.

Em sua contribuição à mostra, Sloterdijk, professor de Estética e Filosofia na Escola Superior de Artes Aplicadas de Karlsruhe, atribui uma dimensão bélica ao missionarismo ocidental e sua meta de democratizar o mundo. Do ponto de vista do Ocidente, a democracia é algo bom a ser imitado. “E como contaminação funciona bem num mundo denso, a democratização poderia dar certo através de uma infecção mimética”, explica Sloterdijk em entrevista ao diário Die Welt.

Porém, a contaminação democrática tem fronteiras e não funciona em todas as partes do mundo, segundo ressalva o filósofo. “O mundo árabe ainda não atingiu o grau de densidade que caracteriza o mundo ocidental. Falta de densidade também é o maior déficit estrutural da África; em conseqüência disso, bons exemplos não se propagam com tanta rapidez, só a SIDA mesmo é que galopa.”

O gueto do capital

Embora a globalização pareça dar margem à transferência ilimitada de modelos de um espaço cultural para o outro e pareça apontar para a abolição das fronteiras, o que ocorre – segundo Sloterdijk – é justamente o contrário: “Minha teoria descreve a globalização como um fenômeno de exclusão sem precedentes. O mundo do bem-estar tende a criar um espaço interior bastante hermético, sem levar em conta qualquer homogeneidade regional ou nacional. Eu denomino isso o ‘interior do mundo do capital'”.

Em seu último livro Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização), recém-publicado pela editora Suhrkamp, Sloterdijk descreve a criação de um complexo de conforto, um espaço interior com fronteiras invisíveis, mas intransponíveis para quem está de fora. Ou seja: uma ilha habitada por um bilhão e meio de pessoas, flutuando num mar povoado por uma população três vezes maior.

Nem as nações mais jovens escapam deste modelo: “Hoje a Índia deve ser uma zona de prosperidade com 200 milhões de pessoas, flutuando num oceano gigantesco onde grassa a miséria de mundo agrário arcaico. Na China, a reforma capitalista do comunismo deve ter beneficiado 400 milhões de pessoas, deixando 800 ou 900 milhões na mais absoluta falta de perspectiva”, ressalta Sloterdijk ao Die Welt.

Mas o prognóstico de Sloterdijk para as ilhas de prosperidade do Ocidente também não é dos mais optimistas: “A era dos grandes alívios está a acabar. Por um bom tempo se misturou o gás do riso da segurança social à atmosfera da Europa Ocidental. Hoje ainda continuamos a respirar ares de consumismo, sem os quais dificilmente se poderia impulsionar uma conjuntura. Remuneração sem empenho e segurança sem luta foram os ingredientes existenciais da Europa durante meio século. Foi isso que ajudou a determinar o clima. Mas agora as pessoas vão ter que sofrer para aprender que as coisas vão ter que funcionar com mais empenho próprio e menos gás do riso”.

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