25 de Abril – Um testemunho

 

 

O que representa o 25 de Abril para os jovens de hoje?

Para eles, eu, que vivi   em pleno e intensamente essa data, e mais, que participei activamente no processo com o entusiamo que me advinha dos meus trinta e oito anos, deixo a minha visão do que foram esses tempos.

Não fui perseguido directamente pelo regime de Salazar. De qualquer modo, senti também na pele a ideologia do regime. O ensino destinava-se apenas aos privilegiados e a falta de cultura mantinha, sobretudo nos centros urbanos, uma mentalidade medieval. Na altura, o único recurso à disposição dos garotos que, de alguma forma, se distinguiam nas escolas rurais, era o Seminário.  Mas com limitações: apesar da reconhecida eficiência do seu ensino, por culpa da própria Igreja e, evidentemente, do Estado, as equivalencias  eram completamente nulas, retirando  aos ex-alunos mais carenciados qualquer hipótese de prosseguimento dos seus estudos. Mas não só: comunguei da miséria que era a característica comum dos centros rurais, onde as gentes lutavam de sol a sol apenas para assegurar a sua sobrevivência.

O 25 de Abril acarretou consigo um extraordinário conjunto de vantagens para os portugueses, a mais notável das quais a liberdade: liberdade de expressão, de pensamento e de acção. É um facto incontestável.

Mas, por outro lado, deu lugar à expressão de ódios, de extremismos, de acções  com  um impacto extremamente negativo na vida dos portugueses, designadamente na sua economia.

Não posso deixar de relembrar o modo como foi destruida a estrutura económica do país, numa aplicação perfeita do tudo ou nada. Numa imagem  representativa de alguém que, vivendo numa casa velha, sem condições, anseia por uma melhor, um desejo perfeitamente louvável e legítimo.  Só não é louvável o facto de, antes de conseguir os seus intentos, esse alguém destruir a casa e passar a viver na rua.

Era comum a visão dos passeios da Avenida da Liberdade pejadas de produtos de empresas ocupadas pelos trabalhadores  que, à míngua de fontes de financiamento, procuravam desfazer-se dos últimos produtos existentes nessas  fábricas.

Quem me conhece, sabe que sou um produto  do nada que, com esforço e determinação, atingiu num período coincidente com o pré-25 de Abril, o lugar de colaborador mais directo daquele que era, ao tempo, considerado o maior industrial português.

Com a chegada do 25 de Abril, muitos me auguravam um futuro pouco risonho. No entanto, os companheiros de trabalho, para com quem adoptara sempre uma atitude solidária, depositaram em mim a sua confiança, escolhendo-me  para presidir à Comissão de Trabalhadores e nomeando-me seu delegado sindical. Com muito senso, conseguiu-se preservar uma empresa que é hoje uma referência no país. O exemplo contrário, onde imperou o extremismo, levou à completa destruição daquela que era a empresa mais rentável no plano nacional, provocando a extinção de um sector básico para qualquer economia: o aço.     

De muitas outras histórias fui interptete e sou testemunha,  como  o cerco da Assembleia da República, àx manifestações da Praça da República e da Alameda e o cerco ao jornal a “República” e do próprio 25 de Novembro que conduziu o processo aos puros caminhos do 25 de Abril que, expurgado de tantos males, teria conduzido o país a um período de paz e de progresso notáveis e até históricos.

 José Maria Mendes

 

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