Lembrando um lexicólogo goês – S. R. Dalgado

 

Na galeria de nobres goeses figura  Sebastião Rodolfo Dalgado. Foi professor da língua e literatura sânscrita na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cultor altamente qualificado da lexicologia luso-oriental. S.R.Dalgado nasceu no dia 8 de Maio de 1855, em Assagão, freguesia do Concelho de Bardês, de Goa. Quando baptizado, foi-lhe dado o nome Sebastião Rodolfo Franquelino. Com o propósito de abraçar o estado clerical estudou preparatórios e filosofia em Mapuçá e cursou teologia no Seminário de Rachol, conquistando sempre as mais elevadas classificações. Das mãos de D.Tomás Gomes de Almeida, Bispo de Teja e Auxiliar do Arcebispo de Goa, foi ordenado sacerdote na Igreja de Panjim em 11 de Junho de 1881 e  dias depois celebrou a Missa Nova na Capela do Monte de Guirim. Já possuía a consciência de superioridade dos seus dons intelectuais. Embarcou para Roma onde se formou em Direito Canónico e Romano, e em 1884 doutorou-se in utroque iure. Em Lisboa foi nomeado missionário régio para servir na Índia para onde partiu em 1885. A Arquidiocese de Goa tinha então à sua frente o Arcebispo D.António Sebastião Valente que o nomeou sucessivamente Desembargador da Relação Eclesiástica, Inspector dos Seminários e Escolas do Padroado e, finalmente, professor da Escritura Sagrada e Direito Canónico no Seminário de Rachol. O jovem Doutor, porém, renunciou ao magistério no Seminário de Rachol por julgar a actividade docente incompatível com a sua comissão de missionário régio.

Investido em 1886 no múnus de Vigário Geral de Ceilão e pouco depois, após a extinção do Padroado Português nesta Ilha, Vigário Geral do Arcebispado de Colombo, mas teve de recolher a Goa, com os seus conterrâneos, porque foi criada nesse ano a hierarquia eclesiástica autónoma da Índia, desligando-a do Padroado português no Oriente.

Ele que sempre sentiu pendor especial para o estudo das línguas, aprendeu italiano e em Ceilão teve o ensejo de aprender malaialam e singalês, além do dialecto português daquela Ilha acerca do qual publicaria mais tarde uma monografia para comemorar o 4.o Centenário do Descobrimento da Índia.

Pouco depois, nomeado Vigário Geral de Bengala, tomou conta desse cargo que, após poucos anos, foi extinto e por isso o nosso conterrâneo desligado do Bispado de Meliapor a que pertencia aquele Vicariato, regressou a Goa, tendo sido enviado como Vigário da Vara de Onor para Canará, onde trabalhou menos de dois anos e se iniciou no canarês, uma das línguas do ramo dravídico. Esteve aí algum tempo em Savantvadi onde adquiriu conhecimento das línguas marata e sânscrito. Em 1895 partiu de novo para Lisboa onde se fixou, vivendo entregue ao magistério universitário e investigação lexicologica. Trabalhou no leito até à morte que ocorreu aos 4 de Abril de 1922.

Ele aproveitou do tempo para estudar profundamente varias línguas. No seu ministério da Palavra ele se embrenhou no domínio da Filologia comparada. Empenhando-se neste estudo, teve a intenção de compor um dicionário que servisse de auxiliar, especialmente aos seus colegas. Quando ele deixou de ser Vigário Geral da missão portuguesa de Bengala, dedicou-se ao estudo do vernáculo de Goa (Concani) com o auxílio de sânscrito, e outras línguas árianas e dravídicas. Pesquisou a mina do léxico português que se oculta nestas e noutras línguas da Ásia. Estudou a considerável influência da civilização portuguesa nas civilizacões indígenas. Publicou o Glossário Luso-Asiático  em dois grossos volumes, através da Academia de Ciências. Compôs uma Gramática de Sânscrito,  dois dicionários Concani-Português e Português-Concani, e um Florilégio dos Provérbios Concanis, obra póstuma. Também publicou a Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas, merecendo grande louvor do filólogo contemporâneo Gonçalves Viana.

S.R.Dalgado usou do alfabeto devanagárico e o método jonesiano (de William Jones) para a transliteração (ou romanização). Estudou os vocábulos portugueses que entraram na língua Concani, e registou também as vozes do Concani puro. Tentou provar  como o Concani originou do Sânscrito e as ligações com a língua  irmã  Marata. Concluia que o Concani não era dialecto do Marata. Explicou os diversos dialectos do Concani em diversas regiões da Índia ou até dentro de Goa.  Trabalhou por uniformizar a escrita do idioma Concani. Goa, já agora com Concani como a sua língua oficial, deve muito a este seu filho filólogo!

 

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