Relembrando os meios de transporte em Goa

 

Quando eu era ainda criança, lembro-me de como íamos a escola e viajávamos. Fómos uma vez de Reis Magos ao Seminário de Saligão de carro de bois. Isto nos anos 50 do século XX. Em Panjim, cidade capital de Goa, vi carros de cavalos. Não os carros de x cavalos de hoje! Havia certas personalidades que andavam a cavalo. O meu avô gostava de falar-me do passado. Eis o que li acerca dos meios de transporte de então. No seu livro, Etnografia da Índia Portuguesa (Tipografia Rangel, Bastorá, 1940, em dois volumes, e há dias traduzido para inglês), António Bernardo de Bragança Pereira descreve os transportes.

Fala da machila, que era catre, em forma dum leito portátil, para transpor­tar uma pessoa deitada; e cadeline (ou cadeirinha), com dois assen­tos a modo de cadeiras, em ambos os extremos, para transportar duas pessoas sentadas. Suspensa com cadeias de ferro num varal/cana, com um toldo de chita (ou de outro qualquer estofo) para resguardo do sol, tendilhão ou coberta de pano oleado (tenda) para abrigo da chuva, era conduzida à cabeça ou nos ombros de quatro boiás/carregadores. Os boiás usavam uns saiotes e casacos de mangas curtas (malaias). Para amortecer a sensação da dureza da carga e corrigir a diferença de altura, os boiás traziam na cabeça um chumbol (pano enroscado) e nivnnem (rodelas de palha de arroz). O boiá de frente, que era capataz, orientava os companheiros, indicando as irregularidades do terreno e os objectos que encontravam no caminho, pela forma seguinte: sovkas=devagar, ek fator=uma pedra, ek danddo=um pau, udok/udik=água, davo=para esquerda, uzvo=para a direita, mukhar=para a frente, begin=depressa, rab-re=para. Vi machilas no Seminário de Rachol e em casa do meu Tio, Estanislau Mesafonte, que ja não é dos vivos, em Velção, no concelho de Salcete, ao sul de Goa. 

Etnografia descreve também o dolim — um grande berço coberto, suspenso dum bambú e conduzido à cabeça por dois (ou quatro) homens, do qual geralmente se servem as mulheres hindús. O palanquim era leito portátil mais largo que o catre, suspenso por meio de cadeias de ferro numa cana arcual no meio e recta nas extremidades. Mennom era palanquim de que se serviam os prelados hindús. Khatli era maca em que eram transportados os doentes das classes inferiores. Tonga era carruagem de duas rodas puxada por cavalos. Sarvotta-gaddi era carruagem de duas rodas puxada por bois. Gaddo era carroça de bois (ou búfalos). Boiada era caravana de bois para transporte de mercadorias comerciais. Ao lado dos caminhos (pandd ), erguiam-se, de espaço em espaço, quase 2 qms., estra­dos de pedra (dovornnim) para descanço das cargas que se trans­portavam sem que precisassem de ajuda de ninguém. As carregadeiras usavam na cabeça um pano enroscado e nos pés chinelas de folhas de palmeira (moso).  

Entre embarcações havia tonas, lanchas, ferry (-boat), batelão árabe, patmarim, canoa (ponel), barco à vela. Ultimamente já havia barcos que faziam ligação com Bombaim e terras mais distantes do ultramar português. Mas continuava a ser uma aventura ir de Rachol a Velha Goa ou de Dona Paula a Vasco da Gama de lancha. As dificuldades de transporte tinham as suas consequências na vida social e cultural. Reduzia a convivência. Casamentos fora do concelho eram raros, e a educação fora da aldeia outra raridade.

 

 

 

 

 

 

 

 

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