GOA: Uma simbiose de culturas

 

Goa é uma ilustração interessante de cruzamento de culturas. Não vou abordar o tema de diversas imigrações no território de Goa. Limito-me ao fenómeno lusofóno: os portugueses foram os primeiros mensageiros da cultura ocidental no Oriente em grande escala. Quando os navegadores portugueses chegaram  a este subcontinente, não encontraram um “país de selvagens”, mas uma “civilização diversa da sua, inferior em muitos traços e superior em alguns”, como afirmou o Conde de Ficalho na sua obra Garcia da Orta e o seu Tempo.

Lembro-me que quando estive de breve visita a Portugal em 1976, indo de combóio, ouvi alguns passageiros que estavam sentados perto de mim a dizer: “Vem de Goa. Goa era um país selvagem”. Mas, dizia eu que não estava a ver muito diferente do que via em Goa: casinhas ao largo do caminho de ferro. Em certos aspectos, Goa era muito superior.

Sem entrar em antagonismos enervantes e desagradáveis, falamos da mais antiga civilização do mundo. Certamente que não havia escolas em moldes modernos, mas não faltavam pequenos núcleos de estudos onde os brâmanes versados nos conhecimentos dos livros religiosos do hinduismo ensinavam à mocidade, em curso mais ou menos longo, os Vedas e os Puranas. Além da matéria religiosa, ministrava-se aos jovens ensino elementar que abrangia noções de leitura e escrita, em alfabeto devanagárico, e também as quatro operações de aritmética. Estava em uso a tabuada de multiplicação de inteiros e fracções incomparavelmente superior à tabuada de Pitágoras. No tocante ao ensino superior, não havia em Goa centros de alta cultura como a Universidade de Taxila, mas havia homens doutos (xastris), que se dedicavam ao estudo profundo não só da religião mas também das ciências e nomeadamente da medicina que marcara na Índia avanço notável. Segundo atesta o naturalista português Garcia da Orta (1502-1568) que em 1542 se achava em Goa e o viajante holandês Jan Huyghen Van Linschotten entre 1583-1588, havia em Goa médicos (panditos) hindús muito hábeis no tratamento de várias moléstias e cujos serviços eram utilizados pelos próprios reinóis: vice-rei, arcebispo, monges, frades, embaixadores, comerciantes.

A língua portuguesa trouxe cultura ocidental que cresceu no solo indiano. Esta simbiose nota-se na língua, arte, música, cultura.

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