Uma visão sobre o corpo

 

Hoje vive-se a revolução do corpo, valores relativos à beleza, saúde, higiene, lazer, alimentação, actividades físicas que têm reorientado um conjunto de comportamentos na sociedade, imprimindo um novo estilo de vida, mais livre, narcísico e hedonista do corpo.

 

Actualmente, o corpo ocidental encontra-se em plena metamorfose. Não se trata mais de aceitá-lo como ele é, mas sim de corrigi-lo, transformá-lo e reconstruí-lo. O indivíduo contemporâneo tenta encontrar no seu corpo uma verdade sobre si mesmo, assim, na falta de realizar-se na sua própria existência, este indivíduo procura hoje realizar-se, através do seu corpo. Ao muda-lo, ele procura transformar a sua relação com o mundo, multiplicando as suas personagens sociais.

 

Pode-se citar actualmente, como a apropriação exagerada do corpo, à difundida ideologia do body building, assim como a body modification, que utilizam técnicas que vão da tatuagem, passando pelos piercings e podendo chegar a outras, mais extremas, como marcas a ferro quente (brandings), etc.

 

A fantasia do corpo transformado em objecto de arte é um estereótipo de nossa idealização estética. As inscrições sobre a pele, a aparição do esqueleto, a visão do sangue e dos pêlos fazem do corpo a “matriz ideal da metáfora”.

 

Na Body Art é a interacção existente entre o espectador e o espectáculo, a recepção e a produção ao ponto de se dissolver qualquer sentido que distinga os dois, que se deve de dar mais ênfase.

 

A carne, terra, técnica e imagem tornam-se a hipersensibilização e os elementos primitivos dentro da cultura de hoje, ainda que o corpo se tenha tornado o centro da atenção pela insustentibilidade que o Homem sente por ele, também pela critica e desfragmentação do próprio corpo. Pode-se afirmar que em relação ao corpo existe sempre ambiguidade.

 

O corpo é fruto de uma construção social, das diferenças de género construídas socialmente ao longo da história. Nessa socialização insere-se a modelagem dos corpos pelas normas, representações culturais e simbólicas próprias de cada sociedade. Neste sentido, tem-se o corpo como o laço da interacção entre o indivíduo e o grupo, a natureza e a cultura, a coerção e a liberdade. O corpo apresenta-se como a interface entre a individualidade no que tem de mais singular, e o grupo, mas igualmente entre a biologia e o social.

 

Pode-se dizer que vai haver um retorno ao arcaico, onde sempre houve uma relação próxima com a terra e com a carne, ainda que no século XX, o Homem fique cada vez mais ligado à técnica e à tecnologia e vai depositar a sua felicidade na procura do progresso, sendo assim, os corpos precisam de trabalhar para concretizar essa verdade. Com a procura da produção, homens e mulheres, tentam adaptar-se como indivíduos ao grupo social, precisando, inúmeras vezes, desistir da sua liberdade de acção e de expressividade.

 

Juntamente com a industrialização, na metade do século XX, os meios de comunicação começaram a funcionar como propulsores da comunicação de massa. A reprodução do corpo não fica mais somente no âmbito da pintura, agora, ela, pode atingir um número elevado de indivíduos. O corpo pode ser reproduzido em série, através da fotografia, do cinema, da televisão, da internet, etc. Tudo isto vai fazer com que haja uma série de procedimentos que se irão centrar sobre a relação que o Homem tem com o orgânico e com a carne.

 

Apareceu, então, na arte, a Body Art/Performance ou Flesh Art e que irá levantar duas questões bastante pertinentes: a enegologia onde se faz a gestão dos corpos colectivos para centrar e reunir energias. Onde a energia humana e dos animais, neste último século, vai concorrer com a energia robótica e informática; depois temos todo o sistema clínico, onde se vai trabalhar directamente com a carne, até porque novas formas de pensar o corpo têm sido reinventadas constantemente, num processo que tem alterado significativamente a relação que os indivíduos têm com seu corpo. O corpo tornou-se objecto de consumo e totalmente fragmentado, o culto ao corpo ganha uma dimensão social inédita, cercado de enormes investimentos. O corpo em forma apresenta-se como um sucesso pessoal, ao qual homens e mulheres podem aspirar. Hoje vive-se na era da magreza, dos regimes, da lipoaspiração, dos implantes de próteses, do botox, dos ginásios, da construção de corpos, ou seja, da metamorfose dos corpos.

 

A Body Art surgiu exactamente contra esta noção de corpo que o Ocidente produziu. Vai contra a higienização do corpo, contra a estilização do mesmo e contra os corpos cosméticos. A Performance/Body Art vai desenvolver-se no prolongamento da expressão da arte e da desesteticização geral da arte, da crise do objecto da arte e da exorbitação da questão do corpo/carne.

 

A partir dos anos sessenta é o corpo que se torna o objecto principal e vai-o ser sobre dois aspectos: a apresentação e a representação. A Performance desde a sua origem segue duas vias separadas, a do espectáculo e a activista. Existindo ainda os Happenings, que são performances furtivas, que se apresenta uma vez e nunca mais. Eram essencialmente utilizadas por culturas, ditas, subversivas como por exemplo a África do Sul, no tempo do Apharteid, ou em países que estiveram dentro da Cortina de Ferro ou a China.

 

Temos como exemplo de artistas da Body Art/Performance a envolvência total de Carolee Schneeman, o conceptualismo de Morris, Marina Abramovic que utiliza as suas performances politicamente ou ainda, Ana Mundieta que faz uma integração do corpo na paisagem como que se os dois fossem o mesmo. A artista plástica francesa Orlan, pode ser citada como referência ao body modification, tendo desde 1990 se submetido a inúmeras cirurgias plásticas para fazer do seu corpo um lugar de debate público. Ela própria reconhece-se e se vê como objecto da sua arte. Sterlac é outro exemplo do que se poderá fazer em Performance/Body Art. Ele aborda questões como a insuficiência de noção de corpo como organismo onde a vontade de superação remete para o antigo desprezo teológico, em que para a teologia o corpo nascia logo obsoleto enquanto que para Sterlac deveio obsoleto. Trata-se do imaginário da técnica levado ao extremo, que despreza a inscrição do real dos corpos e, onde o corpo é uma película que tem de ser trabalhada e redesenhada. É híbrido.

 

O corpo pós-humano é causa e efeito das relações de poder e prazer, virtualidade e realidade.

 

Actualmente os indivíduos, com corpos mutáveis, renováveis, em constantes metamorfoses, têm na imagem do corpo o processo criativo principal de tantas releituras de si mesmo, a reprodutibilidade em série. Desta forma o corpo passou a ser “o mais belo objecto de consumo”.

 

Mafalda Ziegler Miranda

Um pensamento sobre “Uma visão sobre o corpo

  1. Furar o corpo, marcar com ferro quente, e muito mais já se fez no passado da dominação europeia com as cruzadas, a escravatura e a inquisição! Já se praticou muito body art nos corpos alheios! A body art de que fala poderá ser uma visitação da vingança da escravatura, da mesma maneira como o ópio que venderam aos chineses, está agora a ser a vingança do chinês através da droga que está a destruir o Ocidente. Tudo tem o seu retorno! As barbaridades que se cometeram nas colónias africanas durante as guerras coloniais também criaram hábitos de crueldade e deixaram marcas profundas nos comportamentos que continuam a atribular até hoje muitas famílias dos retornados e não só.

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