Motivos pelos quais me vou

O Barman do Hotel Jangadeiro, onde por vezes tomo café expresso, deveria aranhar o inglês, pelo menos. Na realidade, este fruto da sociedade pernambucana, mal fala o português.

-O senhor sabe o que é civismo?-perguntei-lhe.
Desviou os olhos dos meus, concentrando-se no infinito, como que disfarçando a possibilidade de eventualmente poder saber do que se tratava, só estando a preparar-se para responder. Como eu esperei pela resposta, coisa de que não estaria à espera, confessou, passados uns segundos:
-Sei não senhor…
Tentei explicar-lhe, de modo a que ele percebesse, tal como faço quando falo com outro pernambucano de menor condição ou com uma criança.
Ele, após o douto discurso, concordou:
-É, eu sou pernambucano, mas concordo com o senhor.
-Eu vivo também num país atrasado, respondi-lhe, mas somos muito diferentes, sabe? Não tenho paciência para isto.
Na verdade, tornei-me arrogante com esta gente, talvez por algum complexo de superioridade que possa, de modo despercebido, ter invadido o meu ser. Racismo? Pode ser, mas não o da cor da pele, apriorístico e injusto. Talvez aquele racismo que senti quando um cidadão holandês me tratou com arrogância, quando eu lhe disse que era português, nos idos de 90, num parque de campismo em Casablanca.

“Uma andorinha não faz a primavera, nem duas nem três, mas às quatro já as amendoeiras começam a ficar em flor…”

Pernambuco está cheio de machismo, de má educação, de rudeza, incivilidade, e são estes o principais factores que me perturbam, que me fazem correr daqui, que não admitem sequer que eu admita que os meus filhos possam ser criados aqui.
Do mesmo modo, um cidadão estrangeiro a viver em Portugal pode ter estes sentimentos de falta de tolerância, de animosidade para com o português, por inadaptação, por diferenças culturais gritantes. Gritantes não é exagero.
Como, felizmente, não vim para aqui sem bilhete de regresso, posso escolher, tenho a sorte de poder escolher regressar ao meu país, mesmo que seja um país “triste”, como me dizia alguém outro dia, poeticamente, “envolto em nuvens que teimam em não desaparecer”.
“Não há paciência para isto” é a frase de ordem, que preside ao meu regresso e que me faz ser, doravante, um crítico do Brasil.
É uma palhaçada”, é a outra frase. Pernambuco é uma palhaçada. Não lhe devo nada, absolutamente nada. Ele é que me deve a mim, verdadeiro pregador do civismo. Acabei por deixar aqui algum dinheiro português. Pernabuco deve-me. O Brasil deve-me. A ele não devo nada. Todos os que comigo conviveram nada têm a dizer de mim. Eu deles muito, e mal, salvo as costumeiras excepções, claro.
Fui roubado, enganado, ludibriado, fintado, pintaram miséria comigo. Vi irmãos roubarem irmãos, vi desencontros fraticidas, punhaladas nas costas, instituições a enganarem os seus clientes, o Estado a fazer os contribuintes de lorpas, desonestidades sem fim.
Poderia até pensar em ser indemnizado por danos patrimoniais e morais, sobretudo por estes últimos, mas como sou um candidato a cientista social levo em conta que também vai daqui comigo algum património cultural…,aquele, o tal, da educação e do civismo.
Pernambuco tem-me à perna. O Brasil tem-me à perna.
Treme João Paulo!
Treme Luis Inácio!
Treme Ronaldo! (esta foi pra rir)

Pedro Araújo

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