Ciência e Religião – Cada macaco no seu galho!

Stephen Jay Gould escreveu no seu livro Pilares do tempo – Ciência e religião na plenitude da vida

que ciência e religião pertencem a diferentes regimes de verdade, constituem magistérios não-interferentes. “Cada área de investigação emoldura suas próprias regras e suas próprias questões admissíveis, estabelecendo critérios próprios para o julgamento e a solução. Esses padrões aceites, e os procedimentos desenvolvidos para debater e resolver questões legítimas, definem o magistério – ou a autoridade de ensino – de qualquer objecto.” Não faz sentido, portanto, tentar sobrepor o magistério da ciência ao da religião, como não faz sentido tentar unificá-los: “Não vejo como a ciência e a religião podem ser unificadas, ou mesmo sintetizadas, sob qualquer esquema comum de explicação ou análise; mas tampouco entendo por que as duas experiências devem ser conflitantes. A ciência tenta documentar o carácter factual do mundo natural, desenvolvendo teorias que coordenem e expliquem esses factos. A religião, por sua vez, opera na esfera igualmente importante, mas completamente diferente, dos desígnios, significados e valores humanos – assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. De modo semelhante, enquanto os cientistas devem agir segundo princípios éticos, alguns específicos à sua profissão, a validade desses princípios nunca pode ser deduzida das descobertas factuais da ciência”.

Gould tem razão. Da observação dos fenómenos naturais não se pode extrair nenhuma moral, nenhuma ética. As noções de bom e mau, Bem e Mal são assunto de outro magistério, o que trata de problemas morais sobre o valor e o significado da vida, “muito mais antigo do que a ciência (pelo menos como investigação formalizada) e dedicado à busca do consenso, ou ao menos de um esclarecimento de pressuposições e critérios, a respeito do “dever ser” ético, mais do que uma busca de um “é” factual em relação à construção do mundo natural”. As humanidades (filosofia, história, literatura etc) fazem parte dele, mas, segundo Gould, na instituição denominada religião concentrou-se, em diversas sociedades humanas, o discurso pertinente a esse magistério.

Uma “lista superficial” de questões para as quais a ciência só é capaz de fornecer parte da resposta poderia “encher um grande livro”. Em relação aos outros seres vivos, por exemplo, “somos melhores do que as baratas ou as bactérias devido ao facto de termos desenvolvido uma neurologia muito mais complexa? Em que condições (se é que existem) temos o direito de conduzir outras espécies à extinção ao eliminar seus hábitats naturais? Violamos algum código moral quando usamos a tecnologia genética para colocar o gene de uma criatura no genoma de outra espécie?”. Os dados factuais não podem resolver nem, muitas vezes, esclarecer sobre as preocupações embutidas nessas perguntas.

No entanto, a abordagem humana usual de problemas complexos tende a trilhar o caminho da dicotomia, conceituando questões complexas em termos de pares “ou isto/ou aquilo”, extremos que não se encontram no caminho do meio (a aurea mediocritas dos escolásticos). Assim, diante de questões em que ciência e religião oferecem diferentes respostas, “partimos do pressuposto de que deve haver duas soluções extremas: que a ciência e a religião devem lutar até a morte, uma saindo vitoriosa e a outra derrotada; que as duas devem representar a mesma busca, podendo portanto ser integradas uma à outra completa e facilmente, formando uma grande síntese.”

Gould não temeu expor parte de sua trajectória pessoal – ele pertencia a uma família judia – para justificar seu interesse pelo tema e sua posição dentro do debate em torno dele. Ele também recorre às histórias de vida de Charles Darwin e Thomas H. Huxley, para mostrar o princípio de não-interferência respeitosa em acção. Os dois perderam precocemente os filhos favoritos em circunstâncias dolorosas e, mesmo no momento mais agudo da dor, se recusaram a confundir ciência e religião na resposta à pergunta que, certamente, atormentou a mente de cada um: por que seus filhos haviam morrido naquelas circunstâncias?

Com a conhecida erudição e da escrita contundente, destilada em quase trinta anos de colaboração com a revista Natural History, Gould abre o livro com a história de São Tomé, o céptico, o incrédulo, e a “invasão imprópria”, no final do século XVII, do magistério da ciência pelo reverendo Thomas Burnet (de quem já se havia ocupado no fascinante Seta do tempo, ciclo do tempo). Ele revisita o episódio Galileu Galilei x Maffeo Barberini (papa Urbano VIII) para, à luz de seus desdobramentos, analisar a recepção, no século XX, das encíclicas papais Humani Generis (1950), de Pio XII, e Fides et Ratio, de João Paulo II. Gould recorre, ainda, a diversos outros episódios da história para defender que cada macaco deve ficar no próprio galho.

 

4 pensamentos sobre “Ciência e Religião – Cada macaco no seu galho!

  1. Ciência e Religião
    Desde criança li artigos sobre a Fé e a Razão. Esta temática não perdeu sua actualidade ainda nos nossos dias. Hoje se fala tanto de teorias de evolução e de Creacionismo. É ponto assente hoje que a Ciência nem prova nem desaprova a existência de Deus. A Ciência trata de fenómenos. O campo é empírico. Deus transcende as categorias de tempo e de espaço.
    O nosso argumento óbvio é que a Ciência não pode contradizer a Bíbla, porque a Verdade não pode contradizer a Verdade. O modelo a seguir não é o de conflicto mas o de diálogo. Não houve contradicção entre a teoria heliocéntrica advogada por Galileo Galilei, e a Bíblia. Mas o ‘caso Galileu’ foi muito mais complexo.
    A Ciência deve submeter-se a valores éticos. O Criacionismo não tem razão de ser, porque a Bíblia não ensina sobre a constituição do Universo, mas sobre a ‘criação’ do Universo por Deus e a formação do povo israelita. O conceito de criação não é uma teoria científica, mas um conceito teológico. Não há incompatibilidade entre a teoria de evolução e o conceito teológico de criação. Nós aprendemos que Deus é Criador do Universo, como também tantas teorias como de nebulosa, Big-bang. A teoria de evolução do Homem está a ser indagada ainda hoje e recolocada na África. O creacionismo é fundamentalismo bíblico.
    Dr.Ivo da C.Sousa

  2. O problema da relação entre a religião ou, mais genericamente, o senso místico e a ciência está na ordem do dia. Nos extremos, as teses subordinadas à crença numa entidade transcendente batem-se com as perspectivas subordinadas a uma certa dimensão do conhecimento científico – daquele que explica o que não nos transcende. Entre esses extremos, a filosofia busca possibilidades de entendimento dialéctico da relação entre essas posições extremas. E essa busca tem uma história radicada na história social e cultural da humanidade (vale a pena rever também o que Marx e Engels disseram sobre o assunto). Uma proposta curiosa surge nestes dias através do L’Osservatore Romano (14 Maio p.p.) onde o Padre Funes, director do Observatório Astronómico do Vaticano estende algumas considerações interessantes (interessantes em si e pelo momento e onde são produzidas) sobre a possibilidade de vida extraterrestre (é certo que algumas consequências mais profundas acerca da dimensão teológica do problema são resolvidas com recurso à resposta dogmática). Numa outra perspectiva, David Bohm desenvolve a relação entre essa dimensão espiritual do Homem na sua dimensão antropocósmica e a física quântica. Em Bohm, a questão da relação entre a ciência e as religiões adquire uma nova luz. Quem sabe, haverá um “galho comum” onde nos possamos situar?

  3. Ciência das Religiões parece ser hoje uma versão universitária do já velho Humanismo Secular marcado pelas seguintes características e praticado desde remota antiguidade pelo confucionismo na China ou pelos Carvakas na Índia:

    (1) Uma convicção de que dogmas, ideologias e tradições, sejam religiosas, políticas ou sociais, devam ser consideradas e testadas individualmente e não aceitas pela fé.
    (2) Um compromisso com o uso da razão crítica, da evidência factual e dos métodos científicos em substituição à fé e ao misticismo, na procura das soluções dos problemas humanos e nas respostas às importantes questões humanas.
    (3) Uma preocupação prioritária com a realização, crescimento e criatividade tanto para o indivíduo como para a humanidade em geral.
    (3) Uma busca pela verdade objectiva, dentro do entendimento que novos conhecimentos e a experiência, constantemente, alteram nossa percepção imperfeita dessa verdade.
    (4) Uma preocupação com essa vida e um compromisso de fazê-la significativa através de uma melhor auto-compreensão, da compreensão de nossa história, nossas realizações culturais e artísticas e da perspectivas daqueles que diferem de nós.
    (5) Uma convicção de que através da razão, um mercado aberto de idéias, boa vontade e tolerância, pode-se obter a realização de progressos na construção de um mundo melhor.

    Fica uma dúvida: É possivel este projecto aos “comprometidos” com determinadas crenças e instituições religiosas? Só se fingem tais compromissos por motivos de sobrevivência e não os vivem. Se for o caso, não farão muito de positivo nem pela religião nem pela ciência.

  4. Teologia de Religiões
    Precisamos duma teologia de religiões e de um estudo comparativo de várias religiões e quasi-religiões (na expressão de Paul Tillich, marxismo, comunismo, humanismo secular) do mundo. A religião tem de ser re-definida e considerada em relação à natureza humana. A religião é uma dimensão do ser humano.Tem de ser situada claramente em face à Ciência, com que não deverá colidir, mas combinar para nos dar a Ciência da Vida, a Verdade em cheio…
    As religiões tem de ser indagadas na sua comunalidade e diversidade. Os factores comuns a todas as religiões devem ser tomados em conta, como também a diferença nos seus conceitos de divindade, de salvação, de graça, de fé, de méritos, de último fim.
    Este trabalho requer tolerância e abertura de espírito. Deve ser na atmosfera de cordialidade, amizade e diálogo, não de competição, inimizade e conflicto. Só assim poderemos superar barreiras de relações e travar um diálogo de vida…
    Dr.Ivo da C.e Sousa

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