Há espaço para lusofonia democrática no espaço lusófono?

Há poucas semanas o ensaísta Eduardo Lourenço disse à Lusa: “Eu acho que se poderia dispensar este acordo. Escrevo em português e penso que os portugueses vão continuar escrevendo – sobretudo os da minha geração – no código em que foram ensinados. Na minha idade [84 anos], não vou agora mudar para uma ortografia – digamos – comum”. Não percebeu que o Acordo é para as novas gerações? Não é difícil compreender porque vários com outros nomes “sonantes” da vida cultural portuguesa reagem da mesma maneira. São clientes dos livreiros e editores portugueses preocupados com a venda das suas obras primas com a ortografia nacional! Talvez só um tsunami que varresse os stocks na próxima feira do livro (se esta se realizar) poderá resolver o problema e abrir as mentes para outros argumentos mais válidos e que podem promover uma lusofonia democrática. Ou então devemos deixar de falar de lusofonia e espaço lusófono para não sermos cúmplices de uma ditadura cultural pós-colonial disfarçada.

Ontem, 15 de Maio, reportava Lusa: “O Manifesto contra o Acordo Ortográfico, online desde o passado dia 02, já reuniu mais de 33.000 assinaturas, hoje entregues ao presidente da Assembleia da República, informou em comunicado o primeiro signatário do documento, Vasco Graça Moura.

Esta nova diligência dos signatários do documento – Manifesto em defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico, de seu nome completo – ocorreu na véspera do debate sobre o Acordo, agendado para sexta-feira na Assembleia da República.

Além das assinaturas, refere o comunicado, foram também “entregues diversos pareceres e documentos que salientam e demonstram as fragilidades técnicas, científicas e políticas do Acordo” e uma lista de 154 personalidades “representativas dos meios académico, cultural e artístico” que assinaram a petição.

Entre os signatários figuram Álvaro Siza Vieira, António Lobo Antunes, Manuel Alegre, João Cutileiro, Miguel Sousa Tavares, Carlos Pinto Coelho, Joaquim Letria, Pedro Tamen, Gastão Cruz, Luísa Costa Gomes, Teolinda Gersão e José Gil.

Os primeiros subscritores do Manifesto foram Ana Isabel Buescu, António Emiliano, António Lobo Xavier, Eduardo Lourenço, Helena Buescu, Jorge Morais Barbosa, José Pacheco Pereira, José da Silva Peneda, Laura Bulger, Luís Fagundes Duarte, Maria Alzira Seixo, Mário Cláudio, Miguel Veiga, Paulo Teixeira Pinto, Raul Miguel Rosado Fernandes, Vasco Graça Moura, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho e Zita Seabra.

O Manifesto aponta na reforma contida no Acordo “inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades” e qualifica-a de “mal concebida”, “desconchavada”, “sem critério de rigor”, “desnecessária” e “perniciosa”.

Lamentam os peticionários que “pareceres científicos e técnicos” como, por exemplo, o de Óscar Lopes não tivessem sido tomados em consideração e que se avance “atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica”. Pretende-se com isto dizer que vivemos no novo Estado Novo com novas formas de censura do clube de alguns sábios e letrados portugueses, que ainda sonham em Regnos & Senhorios de Portugal ? [respeitando a ortografia do período filipino]

A lusofonia democrática implica respeito pelos números dos cidadãos dos diversos países que constituem a CPLP. Quantos milhões dos portugueses querem decidir o futuro dos quase 160 milhões dos brasileiros e outros tantos milhões dos outros países da CPLP? E os 33,000 assinantes da petição quererão impor o seu padrão? Para citar uma outra opinião: “Sob a batuta de meia dúzia de barões da cultura e da “opinião” (tão intransigentes na defesa das preciosas consoantes mudas como provincianamente acocorados perante Nóbeis ou outras feiras internacionais) e de editores receosos e timoratos, a burguesia nacional fechou-se em copas, isto é, na facilidade do xenofobismo anti-brasileiro e do desdém encoberto pelos africanos. Disfarçou fraquezas próprias com a arrogância pelintra e senil do português velho e de lei. No seu horror congénito à modernidade e às massas, meteu a cabeça na areia (no capelo e borla das macaquices doutorais coimbrãs). Sacrificou o futuro ao passado. O futuro terá de lhe ser arrancado das mãos.”

Teotónio R. de Souza

Um pensamento sobre “Há espaço para lusofonia democrática no espaço lusófono?

  1. Ainda bem que o senso comum prevaleceu na Assembleia da República e conseguiu conter as tendências patrioteiras e suicidas de alguns letrados sabidos. Obrigado Portugal por abrir o caminho para uma lusofonia democrática! Viva a Lusofonia.
    http://tinyurl.com/3w9hud

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