Mais Pernambucadas de Pedro Araújo

Os barman do Hotel Jangadeiro não arranjariam emprego nem numa tasca do Alentejo mais profundo. Cada vez que lá vou é um diferente que me atende. O de hoje fez uma cena que não lembra ao parvo mais parvo dos pernambucanos. Como quase sempre, quando chego ao bar do Hotel, onde, repito, tomo café expresso, nunca está ninguém para atender. Faço um sinal para a recepção, perguntam com a cabeça o que é e eu respondo com o gesto de apontar para dentro do balcão. Fazem sinal de espera e imediatamente vão chamar um barman. O de hoje chegou e ficou da parte de fora do Bar, perguntando o que queria. Embalado pelos gestos, cansado de falar para múmias que não entendem português lusitano, apontei para dentro do balcão. Entendeu o que queria e falou:

-Vou buscar a chave, siô…

Abri os olhos, espantado. Insultei-o logo, em pensamento.

NA FILA DO BANCO

Sexta feira safei-me rapidamente do Banco do Brasil. O tempo real foi o mesmo, cerca de uma hora na fila. O tempo psicológico é que mudou, porque mantive uma agradável conversa com dois pernambucanos interessantes, uma advogada e um desempregado voluntário:

-Não tenho emprego porque não voto há anos. Sem a carteira de votos atualizada fica difícil arranjar trabalho.

O homem parecia uma matraca a falar.

-Não voto porque eu conheço as coisas por dentro e sou um homem inconformado com os políticos, os vereadores, os polícias, a justiça.

A fila andava, lentamente.

A advogada contava uma história horripilante:

-Uma vez ia conduzindo meu carro e atendi o celular. Por azar, parei perto de uns policiais, que me pediram logo os documentos. Tinha deixado os documentos em casa e disse-lhes que poderiam acompanhar-me ao meu prédio, ali próximo, que lhos mostraria. Aí eles cobraram a “propina” e disseram que esperariam cá em baixo. Passei um cheque para eles. Nem pensar em denunciá-los, depois de eles verem onde eu morava?! Só se fosse doida…

Arrepiante. Ela poderia sofrer consequencias, se recusasse ou os denunciasse e eles sabiam que ela sabia disso.Mesmo sendo advogada, a “lei” da propina e da bala não deixa de funcionar. Ao menos esta lei é coerente: é igual para todos.

O desempregado contava também uma história de policiais:

-Eu tenho muitos amigos de infância policiais. Hoje evito eles. É uma corrupção danada. Quando um novato vai em missão, os mais velhos obrigam ele a matar, senão ele morre. Ele assim entra no sistema, ficando sujo. Eles obrigam-no a se corromper, para que não haja o perigo de denunciar outros. A sujeira é grande, ninguém escapa.

-Pois – disse eu – o Lula também nunca usou terno e gravata e agora usa.

-A gente ou vai embora ou se adapta -observou a advogada. Aqui não tem como mudar o sistema não. Quem está contra ele, não consegue nada e se arrisca a morrer.

-Por isso, eu estou fora. Não tenho medo de morrer não. Eu falo mesmo. Eu fui delegado sindical, do PT, mas vi tanta coisa que não aguentei. Agora durmo tranquilo.

Por vezes o desempregado exaltava-se e começava a querer falar em nomes. A advogada aconselhava-o a não o fazer.

O tema mudava, não saindo, contudo, do plano da maledicência. O brasileiro, o povo brasileiro, os politicos, eram os principais visados. Eu só deitava umas achas pra fogueira. Preferia ouvir, em deleite, com um sorriso cínico mal disfarçado, da boca dos próprios réus, a confissão voluntária. A sentença seria agora ainda mais pesada.

-Se em vez de mandarem os criminosos para a cadeia e deixá-los no bem bom, os obrigassem a trabalhar lá dentro, tu ia ver se isto não melhorava – defendia a advogada.

O desempregado fez então uma revelação surpreendente, apoiado logo em seguida pela advogada:

-Rapaz, há caras aqui que andam de bicicleta, procurando se jogar na frente dos carros, para receberem cesta básica, indenização (indenização, pois). É um absurdo esse país.

A fila andava depressa, deste modo. Chegou a vez deles, e a minha viria a seguir. Despedimo-nos.

Saí contente do infeliz e terceiro-mundista Banco do Brasil, que mantém os seus clientes horas nas filas.

Pedro Araújo

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