Diálogo inter-religioso é impossível? – Mahatma Gandhi


Se cada lado assume posições extremadas e pretende ser dono da verdade, nunca haverá espaço para reconhecer o que falta para cada um chegar à verdade. Se não houver a humildade para admitir que é a Verdade que nos possui, e não somos nós que possuimos toda a Verdade, nunca haverá espaço para qualquer diálogo útil. Foi para ultrapassar esta dificuldade que M.K. Gandhi deu uma volta à sua definição de Deus. Em vez de dizer que Deus é Verdade, adoptou como mais benéfica para atingir a tolerância religiosa a formula: A Verdade é Deus. Enquanto Deus era aprisionado pelas denominações religiosas exclusivistas, a Verdade como Deus transmite uma realidade mais abrangente de toda a humanidade e como um processo inacabado de aproximação a Deus. Mahatma Gandhi deixou-nos uma lição da sua vida com os seus ensinamentos e prática de Satyagraha. A agressão violenta precisa de ser substituida por uma “agressão” (=agraha) da verdade e com verdade! Satyagraha como diálogo assume que o mais feroz inimigo tem em si uma faísca divina da verdade. Satyagraha é um diálogo entre as faíscas ou resquícios da verdade presentes em cada um de nós! O processo pode ser longo e desesperante! Mas nunca pode ser conduzido com falta de respeito mútuo. Propomos colocar neste blogue com regularidade alguns textos (traduzidos do original em inglês) da obra Christian Missions: Their Place in India, Ahmedabad, 1941 em que estão reunidos os escritos dispersos de Mahatma Gandhi sobre o cristianismo que ele encontrou na Índia.

Começaremos com um extracto do texto [ pp. 99-101] sobre a Vaca, que é muitas vezes citada com certa sobranceria e humor irreligioso laico:

” A vaca é objecto de culto e veneração para milhões de hindus. Eu conto-me entre eles. Tenho em minha frente uma vacaria e vejo as vacas. Quando eu falo acerca das massas dos Harijans [=”filhos de Deus” a designação que Gandhi criou para os intocáveis da Índia] com os meus amigos cristãos, lhes digo: “A maioria dos Harijans compreende tanto do cristianismo como as minhas vacas”. Esta afirmação minha deixa os meus amigos perplexos. O seu choque chegou até América e tenho recebido cartas a contar-me como alguns americanos já não acham piada no que digo e naquilo que pretendo fazer pelos Harijans. Dizem os críticos: “Você não pode ter grande respeito pelos Harijans se os compara com vacas!”

Não abdico da minha maneira de pensar. O que os americanos dizem sobre isto tem pouca importância para mim. Defendo que a minha comparação é inócua e apropriada. É inócua porque a vaca ocupa um lugar muito especial na Índia. É também apropriada porque a maneira como o cristianismo é apresentado na Índia aos Harijans comuns é impossível para eles compreenderem-no como o seria às vacas. Pensar que o mais atrasado dos Harijans poderá compreender o cristianismo dado algum tempo, mas que uma vaca nunca o poderá fazer, não é boa lógica, porque estamos a falar da situação actual, e não de uma possibilidade futura. Vou alargar um bocado a minha comparação e dizer que o meu netinho de 5 anos e a minha mulher com 68 também não entendem o cristianismo. Estão numa situação igual à das vacas. Tenho por todos eles muito carinho e presto-lhes muita atenção. Posso dizer de mim próprio que hoje não sou capaz de ler o alfabeto chinês, da mesma maneira como a minha venerada vaca não o consegue. Isto não quer dizer que se alguém começar a ensinar-me o alfabeto chinês e se a vaca aceitar juntar-se na aula, eu certamente terei sucesso total, e a minha vaca nenhum. Quero que os meus críticos e os incrédulos saibam que apesar da comparação que faço, tenho argumento imbatível para afirmar que é ridículo tentar destruir a fé simples e enraizada dos Harijans na sua religião ancestral e transferi-la para uma outra, mesmo que esta seja tão boa ou melhor do que a original. Embora todos os solos tenham qualidades similares, nem todas as sementes vingam bem em todos os solos. Eu conheço umas sementes de algodão que se dão muito bem em certas regiões de Bengala. Mas a Miraben não conseguiu fazer nada com elas no solo aqui de Varoda. Não poderei concluir daí que o solo de Varoda (hoje Vadodara) é inferior ao de Bengala. Sinto que os meus amigos cristãos não se atrevem hoje em dia a dizer que a religião Hindu é falsa, mas não duvido que dentro de si andam convencidos que o hinduísmo defende falsidades e que o cristianismo é a única religião verdadeira. Se não fosse assim não seria possivel compreender um apelo da C.M.S. (=Christian Missionary Society) que eu reproduzi em parte há dias no meu jornal. Compreendo o seu ataque à intocabilidade e algumas outras práticas erradas que se introduziram na vida hindu ao longo dos séculos. Se manifestassem interesse e disponibilidade para corrigir esses erros, fariam uma contribuição positiva que seria agradecida. Mas o que pretendem é destruir o Hinduísmo desde as suas bases e substituí-lo por outra fé. É como tentar destruir uma casa, que pode precisar de reparações, mas continua a ser útil e habitável para quem reside nela. Ficaria contente se alguém se oferecesse para melhorar as condições, mas vai resistir contra quem queira demolir a morada que lhe serviu a ele e aos seus ascendentes até agora. Ele só abandonaria a casa se estivesse convencido que não era mais digna para habitação humana. Se o mundo cristão pensa assim da religião hindu, o “Parlamento da Religiões” e a “Fraternidade Internacional” são expressões vazias de sentido. Devem exprimir igualdade de estatuto, uma plataforma para iguais. Não pode haver plataforma igual para superiores e inferiores, para iluminados e obscurantistas, para regenerados e iregenerados, para os de castas altas e excluidos das castas. A minha comparação pode parecer fraca, ou mesmo ofensiva. A minha lógica pode parecer desolocada. Mas mantenho as minhas convicções. [Harijan, 13 de Março de 1937]

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