Contas e Contagens

A propósito do meu post anterior sobre Efemérides, o Tiago Pais levantou, na AMBIO, a interesssante questão de saber se a verdadeira data da chegada de Vasco da Gama à Índia é o dia 21 de Maio de 1498, tanto mais que, na altura, não se utilizava o actual Calendário Gregoriano.
Quanto conheço do assunto, a referida data está já corrigida de acordo com o Calendário Gregoriano, em uso em Portugal desde Outubro de 1582, altura em que, por decisão do Papa Gregório XIII (1512-1586), foram suprimidos 10 dias ao Calendário Juliano da Era Cristã. Dessa forma, o dia seguinte a 4 de Outubro de 1582 passou a ser 15 de Outubro do mesmo ano, para que o equinócio da primavera voltasse a ocorrer a 21 de Março, e não a 11 de Março, como estava a acontecer.
Essa alteração foi aceite, de imediato, em Portugal e na Espanha; na França, em Dezembro de 1582; na Alemanha e na Áustria, em 1584; na Hungria, em 1587; na Inglaterra, em 1752; na Suécia, em 1753; na Rússia, em 1923, já com a eliminação de 13 dias do seu alendário. A propósito, Kepler costumava dizer que os ingleses preferiam antes desobedecer ao Sol do que obedecer ao Papa.

Anteriormente à referida reforma do Calendário, ainda hoje em vigor, em Portugal começou por se seguir a Era de César ou Era Hispânica, com início no 1º de Janeiro de 38 a.C., do Calendário Juliano. Essa datação foi substituída pela da Era Cristã (ou Era da Graça, ou Anno Domini, ou Era Comum) pelo rei D. João I, a 15 de Agosto de 1422, com início de contagem no suposto ano 1 do nascimento de Cristo, ainda segundo o Calendário Juliano.

Mas talvez mais interessante, do que esta questão de contas e contagens, é saber que o primeiro português, da tripulação de Vasco da Gama, a pôr o pé em terra, em Calecut, foi o degradado e quase ignorado João Nunes, que, por uma das raras casualidades do destino, ali encontrou o seu amigo tunisino Monçaide (a quem o próprio Camões dedica várias estrofes, no Canto Sétimo dos Lusíadas). E a conversa aconteceu mesmo em castelhano, com o tunisino a querer saber o que estavam ali os portugueses a fazer, ao que João Nunes terá respondido que “vimos buscar cristãos e especiaria”. Para mim, a frase mais emblemática de toda a história dos “achamentos” portugueses.

Manuel Antunes

Um pensamento sobre “Contas e Contagens

  1. Segundo as autoridades actualizadas sobre este evento, as naus de VAsco da Gama ancoraram num Domingo, 20 de Maio (29 de Maio pelo novo calendário gregoriano) e passaram para a terra no dia seguinte, 21 de Maio. Devido à turbulência do oceano nesta altura do ano com as monções já no sítio, só permitiu aos portugueses ficar no mar ouvindo os conselhos dos naturais e abrigando os barcos em Pandarane, um dos três portos em que se formam bancos de lodo na costa do Malabar, reduzindo desta forma a turbulência, servindo o lodo em suspensão como amortecedor da ondulação e criando um ancoradouro seguro. Este fenómeno não é conhecido em nehuma outra parte do mundo. Os chineses já sabiam disto quando comerciavam com a Índia desde os primeiros séculos da nossa era. Um estudo sobre este fenómeno foi publicado pelos investigadores do Instituto Nacional de Oceanografia (Goa), C.K. Gopinathan e S.Z. Qasim, “Mud banks of Kerala – Their Formation and Characteristics”, in Indian Journal of Marine Sciences, vol. 3, 1974, pp. 105-114.

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