Nietzsche: antitotalitário e antidemocrático

O homem, dizia Nietzsche, é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de “transcendente”, de “eterno” e “verdadeiro”, quando os valores não são mais do que algo “humano, demasiado humano”.

O cristianismo, continua Nietzsche, é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo, repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escrava escapar à vida, à dor e à luta, e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. “Este ódio de tudo que é humano”, diz Nietzsche, “de tudo que é ‘animal’ e mais ainda de tudo que é ‘matéria’, este temor dos sentidos… este horror da felicidade e da beleza; este desejo de fugir de tudo que é aparência, mudança, dever, morte, esforço, desejo mesmo, tudo isso significa… vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida”.

Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: “munido de uma tocha cuja luz não treme, levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal”. A imagem da tocha simboliza, no pensamento de Nietzsche, o método filológico, por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia, pois procura “fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo”. Nietzsche traz à tona, por exemplo, um significado esquecido da palavra “bom”. Em latim, bonus significa também o “guerreiro”, significado este que foi sepultado pelo cristianismo. Assim como esse, outros significados precisariam ser recuperados; com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de “bem” e de “mal”. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento (“é tua culpa se sou fraco e infeliz”); a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam, dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas); e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). A partir daqui, a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação, triunfando o negativo e a reacção contra a ação. Quando esse niilismo triunfa, diz Nietzsche, a vontade de potência deixa de querer significar “criar” para querer dizer “dominar”; essa é a maneira como o escravo a concebe. Assim, na fórmula “tu és mau, logo eu sou bom”, Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos que negam a vida, e negam a “afirmação”; neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes, a baixeza transforma-se em nobreza. A “profundidade da consciência” que busca o Bem e a Verdade, diz Nietzsche, implica resignação, hipocrisia e máscara, e o intérprete-filólogo, ao percorrer os signos para denunciá-las, deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a “profundidade da interioridade” é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência, o Bem é a vontade do mais forte, do “guerreiro”, do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos, do super-homem, entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano, é o além-do-homem. Assim, o vôo da águia, a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície.

A etimologia nietzschiana mostra que não existe um “sentido original”, pois as próprias palavras não passam de interpretações, antes mesmo de serem signos, e se elas só significam porque são “interpretações essenciais”. As palavras, segundo Nietzsche, sempre foram inventadas pelas classes superiores e, assim, não indicam um significado, mas impõem uma interpretação. O trabalho do etimologista, portanto, deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado, na medida em que tudo é máscara, interpretação, avaliação. Fazer isso é “aliviar o que vive, dançar, criar”. Zaratustra, é o intérprete por excelência.

Vontade de potência, diz Nietzsche, significa “criar”, “dar” e “avaliar”.

Nesse sentido, a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. A moral do além-do-homem, que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta, é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. Oposta, portanto, à moral da compaixão, da piedade, da doçura feminina e cristã. Assim, para Nietzsche, bondade, objetividade, humildade, piedade, amor ao próximo, constituem valores inferiores, impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos, pelo orgulho, pelo risco, pela personalidade criadora, pelo amor ao distante. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação, como a crítica total que acompanha a criação; assim, Zaratustra, o profeta do além-do-homem, é a pura afirmação, que leva a negação a seu último grau, fazendo dela uma acção, uma instância a serviço daquele que cria, que afirma.

Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. “A democracia é a forma histórica de decadência do Estado”, afirmou Nietzsche, entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento, sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: “estamos a sofrer as consequências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados, segundo as quais o Estado é o mais alto fim do homem, e, assim, não há mais elevado fim do que servi-lo. Considero tal facto não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez”. Por outro lado, Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção; essas teorias seriam apenas “fantásticas”; para ele, ao contrário, o Estado tem uma origem “terrível”, sendo criação da violência e da conquista e, como conseqeência, seus alicerces encontram-se na máxima que diz: “o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância, usurpação e violência”.

O Estado, diz Nietzsche, está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem, portanto, tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre, tornando-a estática e estereotipada. Ao contrário disso, o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-do-homem.


Alguns aforismos de Nietzsche:

“Nunca suponha igualdade de sentimentos.”

“Não há factos, só interpretações.”

“Há homens que nascem póstumos.”

“Não pretendo ser feliz, mas verdadeiro.”

Um pensamento sobre “Nietzsche: antitotalitário e antidemocrático

  1. HOMEM NOVO E A MORTE DE DEUS SEGUNDO F.NIETZSCHE
    VALORES DA VIDA E O “SENTIDO DA TERRA”.

    Friedrich Nietzsche trouxe-me à mente desde os meus tempos de estudante o “Homem Novo”, o “Superhomem”. Atrás da “morte de Deus” surge o Homem Novo que é um indivíduo fiel aos valores da vida, ao “sentido da terra”.
    Ele usa tom combativo e linguagem retórica. Tivemos experiência terrível no nosso século: o holocausto, a exaltação do “sangue alemão”. Parece a sociedade considerar o ideal do homem como crueldade, brutalidade, falta de compaixão. Basta ver como o televisor nos dá o cenário do boxing, e a gente a gozar do cenário. O racismo defendeu teses racistas. Vejamos a ideia nietzscheana do Super-homem.
    Segundo F.Nietzsche, o Super-homem tem as seguintes características: Nietzsche não aceita igualitarismo—com os cristãos que admitem que todos somos iguais, filhos de Deus e irmãos. Há homens superiores e homens inferiores; há Super-homem. Os débeis devem perecer, como a cidade-estado de Esparta dizimava crianças doentis.
    *moral da violência: falta de compaixão, crueldade, força, violência, combate e guerra, desprezo pelos débeis. O fim justifica os meios. O homem superior se distingue do homem inferior pela intrepidez com que provoca a desgraça. Criticou o judaismo e o cristianismo. Defendeu o seu ponto de vista e favoreceu o Nazismo.
    A concepçao nietzscheana está ligada ao platonismo e à morte de Deus. O homem tem de superar os valores tradicionais, “a moral do rebanho”, a moral que se baseia na fé numa realidade transcendental que fomenta desprezo pela vida, pela corporeidade e pela diferença entre as pessoas. O homem superior deve prescindir da crença em Deus, deve realisar até o fim a “morte de Deus”.
    O Nazismo defende o culto do racismo, do Estado, proclama a superioridade do grupo sobre o indivíduo, mas é essencial à filosofia nietzscheana a tese de que não existe o universal. Nietzsche não acredita em realidades universais. Para ele não existe a Humanidade, a Raça, a Nação. Estão mais concentrados nos uniformes e disciplina militar. A sua ideologia favorece mais o grupo do que o indivíduo.A raça, o destino do povo, do Estado, da Nação são máscaras para ocultar o Absoluto.
    O Super-homem deve criar valores, que lhe permitam expressar adequadamanete sua própria personalidade. Vive na finitude, aceita as limitações da existência humana, as realidades terríveis da existência, como o sofrimento, a enfermidade, a morte. Procura dificuldades e aventuras, que o enriquecem, pelas quais ele pode crescer. Quer surpresas. Quer viver a vida em cheio, a alegria, a beleza, o entusiasmo, a fé, a saùde, o amor. É afirmação enérgica da vida, fidelidade ao sentido do homem e da terra. (“Assim falou Zaratustra”).

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