O Futuro de África: Opinião de um Treinador de Bancada

“Meu Deus, não paro de perguntar,

Nós não acreditamos nos profetas brancos

Mas eles não acreditam nos profetas negros

Porque nos criastes assim, Meu Deus,

O nosso antepassado de nós negros onde está

A África vê muito bem

África,  já não podemos recuar.

(Nakomitunaka, 1971)

 

Num tempo em que se desenrola o importante II Congresso Internacional da África Lusófona sob o tema Agenda Global para a África Lusófona, é justo que se preste homenagem a este Continente retomando velhas questões, mas procurando novas respostas.
Para um Europeu, uma aventura em torno de futurologia africana pode parecer facilmente o papel de Treinador de Bancada: alguém que gosta muito de desafios, mas que dá o seu palpite por fora da realidade. É certo.
Um Europeu pode amar profundamente o Continente, vê-lo com novos olhos distantes da cobiça de tempos recentes mas, é sempre um estranho que dá palpites sobre uma dimensão que lhe escapa. Escreve um africano:

A maioria das pessoas de hoje sabe como é difícil avaliar a vida e as pretensões de outras culturas e tradições sem cair presa dos preconceitos decorrentes das perspectivas das nossas.” (Appiah, Kwame (1992), Na Casa de Meu Pai. Contraponto: Rio de Janeiro. p. 22).

Porque se trata de “Folhas de História” e porque a história deve ser encarada com seriedade e empirismo devemos pensar como Bloch:

Il n’en est pas moins vrai que, face à l’immense et confuse réalité, l’historien est nécessairement amené à y découper le point d’application particulier de ses outils ; par suite, à faire en elle un choix qui, de toute évidence, ne sera pas le même que celui du biologiste par exemple ; qui sera proprement un choix d’historien. Ceci est un authentique problème d’action.” (BLOCH, Marc (1949), Apologie pour l’Histoire ou Métier d’Historien. Librairie Armand Colin : Paris, 2e édition, 1952,p. 16).

 

Ao Treinador de Bancada, para reflectir na questão sem cometer o pecado de Ilusão do Saber, aquele que lê muito e aprende muito mas que continua de fora dos problemas que analisa, só existe um remédio capaz de transmitir a credibilidade que lhe falta para dissertar sobre seara alheia: devolve a palavra aos agricultores do espírito africano.
Respeitando este princípio, ainda antes de entregar a ideia de África aos próprios africanos, o Treinador de Bancada expõe-se a um ligeiro calafrio gerado pela presença dos três fantasmas de Dickens, pois também aqui existe um continente  passado, presente e futuro. Uma África em que é possível encontrar um certo continuum temporal marcado por erros e martírios passados, pelas dicotomias abundância/rarefacção do presente e pela peregrina ideia da consolidação e respeito por múltiplas identidades, no futuro.

Na medida em que, para obterem as melhores condições de negociação com o colonizador, ou, ao contrário, para o combaterem, numerosos africanos fizeram seus e adaptaram à sua condição particular os princípios filosóficos e ideológicos característicos das sociedades europeias, assim como as suas formas de mobilização e de acção, essa é também a de uma «ocidentalização» e de uma «aculturação» seculares, de que, no fim de contas, a colonização não foi mais do que uma fase.” (M’BOKOLO, Elikia (2004), ÁFRICA NEGRA: História e Civilizações, Tomo II; Edições Colibri: Lisboa, 2.ª Edição, 2007. p. 455.).

Este lastro de um passado recente a que se refere M’Bokolo, ou a constatação de sociedades africanas divididas pelas «cidadanias diversas» a que alude Mia Couto, dão origem a um presente onde se retoma a fantasmagórica ideia de que:

O tempo trabalhou a nossa alma colectiva por via de três materiais: o passado, o presente e o futuro. Nenhum desses materiais parece estar feito para uso imediato. O passado foi mal embalado e chega-nos deformado, carregado de mitos e preconceitos. O presente vem vestido de roupa emprestada. E o futuro foi encomendado por interesses que nos são alheios.” (COUTO, Mia, A Fronteira da Cultura, in Pensatempos. Caminho: Lisboa, 2.ª Edição, 2005. p. 10).

Um tempo presente africano de «roupa emprestada» reveste-se ainda de uma «corrida às taxas de crescimento e não a corrida à promoção humana», como nos adianta Ki-Zerbo. Instado a falar sobre o tema da desigualdade na distribuição de rendimentos, este saudoso representante da «historiografia dos processos» afirmava que:

O sistema gera ipso facto a pobreza e desemboca na pauperização. Não convém considerar que a pobreza é a causa do subdesenvolvimento – ela é um produto do sistema actual. Mas actua-se como se a pobreza fosse uma entidade metafísica que afecta, infelizmente, certos grupos da espécie humana por razões que têm a ver com eles. A pobreza é tratada a posteriori sem pôr em causa as molas e a estrutura do sistema.” (KI-ZERBO, Joseph (2003), Para Quando África? Entrevista de René Holenstein; Campo das Letras: Porto, 2006. p. 29).

As molas e a estrutura do sistema africano mencionado por Ki-Zerbo são como raízes que crescem silenciosamente debaixo do solo, longe dos olhares de quem só lhe conhece os resultados. Resultados estes que só podem ser devidamente compreendidos se conhecermos e compreendermos as dimensões pós-económicas que lhes subjazem. Será numa atitude de correcta apreensão destes factos que se afigura ser possível traçar um futuro esclarecido. Trata-se de dar o salto transcendente para o modelo humanista de desenvolvimento planetário a que alude Ki-Zerbo – ou mudamos ou morremos (idem. p. 147).
Ao profano, a este treinador de bancada, restará uma derradeira questão por resolver: será esta África do futuro tão distante, nas suas soluções e nos seus desafios, do resto do planeta? Não existe resposta infalível. Contudo, parece indicado sublinhar as palavras de outro africano as quais, talvez indiquem caminhos para uma resposta:

Só resolveremos os nossos problemas se os encararmos como problemas humanos, decorrentes de uma situação especial. Não os solucionaremos se os virmos como problemas africanos, gerados pelo facto de sermos diferentes dos outros.” (WIREDU, Kwasi apud APPIAH, Kwame (1992), Na Casa de Meu Pai. Contraponto: Rio de Janeiro. p. 192).

Assim, talvez não haja treinadores de bancada a pronunciar-se sobre o futuro de África, pois este «jogo» disputa-se afinal num terreno muito mais amplo, que é o da própria humanidade. Uma partida onde todos somos simultaneamente jogadores e treinadores obrigados a vencer o desafio de conquistar um mundo melhor, mais pluralista e mais solidário.

João de Bianchi Villar

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