Da Cidadania à Diáspora

Decorreu nos passados dias 28-29 de Maio, na Universidade Lusófona, o II CONGRESSO INTERNACIONAL DA ÁFRICA LUSÓFONA, onde tive a oportunidade e honra de moderar um Painel, com o “enquadramento” que aqui se reproduz:

“Cidadania, Diversidade, Cultura, Migrações e Diáspora”

Parafraseando algures Torga: – Que grande título para um Painel!…
Ainda bem que não se refere à “Civilização”. Termo que, devido às vicissitudes a que esteve ligado, a lembrar a “democracia” que Bush está a espalhar pelo mundo, à bomba, desde há muito que eu propus que fosse posto no caixote do lixo da história.

E já que vamos falar da temática referida, permitam-me que evoque a chegada da primeira armada portuguesa à Índia, em 1498, fez, nos dias 20/21 de Maio, 510 anos. E que lembre o degradado e quase ignorado João Nunes, o primeiro da tripulação a pôr o pé em terra de Calecut, que, por uma das raras casualidades do destino, ali encontrou o seu amigo tunisino Monçaide (a quem o próprio Camões dedica várias estrofes, no Canto Sétimo dos Lusíadas). E a conversa aconteceu mesmo em castelhano, com o tunisino a querer saber o que estavam ali os portugueses a fazer, ao que João Nunes terá respondido que “vimos para buscar a cristianos y la especia” (“vimos buscar cristãos e especiaria”). Para mim, a frase mais emblemática de toda a história dos “achamentos” portugueses.

Este diálogo entre o tunisino Monçaide e o português João Nunes, transcrito pelo autor do Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, é bem o símbolo do primeiro confronto entre uma hegemonia, que durante séculos se afirmou por todo o Oriente, com as suas ramificações pela Europa, através de Génova e Veneza, e uma anti-hegemonia emergente, com o seu epicentro em Lisboa, que, por obra e graça da hegemonia papal, com o Tratado de Tordesilhas, passou a ter metade do mundo como limite.

A generalidade dos autores faz remontar o fenómeno da globalização dos nossos dias aos Descobrimentos Portugueses, de que a chegada de Vasco da Gama à Índia é bem o “ex-libris”.

No entanto, o saudoso André Gunder Frank, que, se não fora o inesperado problema grave de saúde, era para nos dar a honra da sua muito estimada presença na ULHT, na X Semana Sociológica, lançou o repto, já lá vai mais de uma década, ao questionar se o Sistema Mundial teria 500 ou 5.000 anos[1].

Aproveitando a deixa, permitam-me que eu pergunte se a globalização terá 500, 5.000, 50.000, ou 100.000 anos? O mesmo é questionarmo-nos se a globalização não será tão antiga como a própria humanidade.

Pessoalmente sou de opinião que o homem é natural/potencialmente global. Naturalmente, também, que as formas/potencialidades da globalização, ao longo da história, foram sempre bem diferentes. Como multivariadas são a “Cidadania, Diversidade, Cultura, Migrações e Diáspora”, que constituem o tema deste Painel, nesta Lisboa, “grande cidade de muitas e desvairadas gentes”, no dizer de Fernão Lopes.

Manuel Antunes
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[1] Cf. André Gunder Frank; Barry K. Gills, The World System: Five hundred years or five thousand, London / N. York, Routledge, 1993.

2 pensamentos sobre “Da Cidadania à Diáspora

  1. Gostei muito do teu escrito, Manuel. Concordo plenamente contigo em que o processo da globalização é tão antigo como a humanidade. Hoje, porém, o processo tomou dimensões vastíssimas. O mundo tornou-se “aldeia global”. Li que um português exilado que foi trazido por Vasco da Gama a Calicut (hoje Kozhikode), onde ele ancorou, foi questionado por dois Mouros da Tunísia: “Al diabo que te doo! Quem te traxo acá?”. Imediatamente ele lhes retorquiu: “Vimos buscar cristãos e especiarias” (Cf.António da Silva Rego, História das Missões do Padroado Português no Oriente, vol.1 (1500-1542), Lisboa, 1949, pp.37-38). Os Portugueses continuaram em proporções maiores o processo da globalização. Podemos sempre discutir os prós e os contras deste processo histórico. A história se repete, a história é mestra da vida…
    Dr.Ivo da C.e Sousa

  2. Para responder ao repto de Manuel Antunes acerca de quando terá começado a globalização, sempre pensei que começou quando os primatas abandonaram as árvores e iniciaram a sua diáspora a partir do Rift Valley no leste africano. É incrível a extensão dessa diáspora! E sem meios de transporte ou comunicação utilizados pela globalização de hoje!

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