Goa: A Revolução de 18 de Junho

Hoje se celebra em Goa o Dia da Revolução (Goa Revolution Day), que teve lugar em 18 de Junho de 1946. Lembramo-nos hoje de dois heróis da liberdade, Doutor Ram Manohar Lohia e Doutor Julião Menezes. Ele se juntou ao Dr.Lohia para integrar Goa no bojo da Índia-Mãe em Margão.

Dr.Menezes, que era da aldeia de Assolnã, estudou medicina em Goa e foi à Universidade de Berlim para os seus estudos. Lá ele se encontrou com Dr.Lohia, que fazia a sua Tese de Doutoramento em Economia, versando sobre o Salt Satyagraha (Luta pela Verdade no tocante ao sal), cantonando-se sobre a teoria sócio-económica de Mahatma Gandhi. Quando sopravam ventos de independência na Índia, os Ingleses enviaram o Maharajá de Bikaner, Ganga Singh (1898-1944) para representar Índia Britânica na Liga de Nações (precursor da ONU). Lohia e Menezes entraram lá à porfia. Quando o Maharaja de Bikaner (hoje Rajasthan) louvou o Governo britânico na Índia, eles assobiaram. Naturalmente, foram removidos por guardas da galeria dos visitantes. No dia seguinte, Lohia escreveu uma ‘carta aberta’ à Liga, explicando a verdadeira situação na Índia e a razão por que eles se comportaram daquela maneira. Um jornal local, Lutrona, publicou a carta de Lohia e foi distribuído pelos membros da Liga. Lohia foi eleito Secretário da recém-formada União de Estudantes Indianos na Europa (Indian Students Union in Europe), e Menezes participou em todas as suas actividades. Dr.Lohia regressou a Índia em 1933, para dedicar a sua vida à Patria. Ele esteve envolvido em formar o Partido Socialista do Congresso (Congress Socialist Party), e foi eleito para a Comissão do Congresso (Congress Working Committee) em 1934. Ele foi preso por se ter oposto aos Ingleses durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1938, Dr.Menezes voltou a Assolnã, e reavivou o “Club Juvenile” (o Clube Juvenil) e fundou uma livraria, onde distribuía clandestinamente livros patrióticos para a juventude daquela área. As autoridades portuguesas fizeram busca na livraria e no Clube Juvenil. Mas Dr.Menezes já estava em Bombaim, onde fundou Gomantak Praja Mandal.

Em 1942, Dr.Menezes lançou Gomantak, um semanário bilingüe-em inglês e concani-, em Bombaim. Ele também continuou a ter contacto com o seu amigo Dr.Lohia, que estava activo no Congress Socialist Party. O Movimento “Quit India” pôs o país em alvoroço. Goeses em Bombaim juntaram-se a outros indianos na luta contra o colonialismo. O grito de Mahatma Gandhi, “do or die” (‘libertai ou aliás morrei’), fez estremecer o regime colonial inglês. Lohia era amigo de Gandhi. Esperando prisão, Dr.Lohia foi aos esconderijos em 9 de agosto. Ele se encontrou com Dr.Menezes e expressou o seu anseio de permanecer escondido em Goa. Mas Dr.Menezes avisou-o acerca de agentes britânicos que operavam no território português. Dr.Lohia preferiu escapar ao Norte da Índia e mais tarde a Nepal. Ele foi preso em 1943 juntamente com Jayaprakash Narayan e mandado à prisão em Agra.

Depois de ter sido libertado em 11 de Abril de 1946, Dr.Menezes aconselhou-o a repousar em sua casa em Assolnã, Goa. Eles chegaram a Goa em 10 de junho e deviam voltar a Bombaim em 19 de junho. Roquezinho Almeida, amigo do Dr.Menezes, informou Vasant Vaikunth Kare m Margão, a respeito da chegada do Dr.Lohia. Notícias da sua chegada foram publicadas em “O Heraldo’. Em 11 de junho, Kare e Almeida encontraram Dr.Lohia em Assolnã. Visitantes correram ao encontro do Dr.Lohia, a falar dos seus sofrimentos. Eles decidiram desafiar a proibição pelos portugueses de reuniões públicas. Dr.Menezes ofereceu-se a juntar-se para um Satyagraha para liberdades civis. Em 15 de junho, ao convite de alguns nacionalistas, Lohia e Menezes foram a Vasco da Gama e se encontraram com alguns cidadãos importantes. Eles foram convidados por alguns jovens a Panjim, e em 16 de junho tiveram um encontro durante a noite na capital. Foi lá que eles fixaram a data do Satyagraha para 18 de junho de 1946.

Houve oposição em Margão: Em 17 de junho houve um encontro na Damodar Vidyalaya em Margão. Alguns dos convidados arguiram contra acção imediata, e pediram para adiar o Satyagraha por seis meses. Outro grupos se oposeram ao ‘outsider’ (estranho), vindo do Maharashtra na Índia e tomando liderança. Os representantes da comunidade commercial não estavam preparados a prejudicar as suas relações comerciais com Portugal. Mas Dr.Lohia e Dr.Menezes, com mão firme, anunciaram a decisão de rebeldia no dia seguinte. No entanto, a notícia da revolução se tinha espalhado em Goa. Eles decidiram passar a noite no Hotel República na rua da estação do caminho de ferro. Polícia pediu os taxistas vir com os convidados ao posto policial. Laxmidas Borkar, um jovem socialista e jornalista, que tinha sido pedido trazer os líderes para a reunião, levou-os numa Victória (carro de cavalos) à estação do autocarro, porque os taxistas tinham sido avisados pela polícia trazer os passageiros ao posto policial.

Dr.Lohia e Dr.Menezes andaram ao sítio (hoje conhecido como Lohia Maidan), onde uma multidão estava reunida a gritar: ‘Dr.Ram Manohar Lohia ki jai” e “Jai Hind”. As autoridades nunca tinham visto uma tal demonstração. Ao Dr.Lohia não lhe foi permitido falar. Mas ambos foram levados ao posto policial de Margão. Gente marchou ao posto policial e pediu que libertasse os líderes. Polícia teve que pedir ao Dr.Lohia para avisar a gente a dispersar-se. Dr.Lohia disse à gente para regressar a casa, mas continuar a luta. Mais tarde os dois líderes foram levados a Panjim e colocados na prisão. Eles foram postos em liberdade no dia seguinte, 19 de junho. Dr.Lohia foi ‘deportado’ a Índia, ele foi levado a Castle Rock de combóio e pedido para abandonar o território. Dr.Menezes, sendo goês, foi posto em liberdade em Panjim. Desde 18 de junho de 1946 houve actividade de libertação da parte dos jovens em toda a Goa. Desta luta nasceu o Congresso Nacional (Goa), com a mão activa de José Inácio de Loyola. Foi o começo do processo que acabaria em 19 de Dezembro de 1961 com o fim da era colonial portuguesa na Índia.

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