Goa: Relembrando o Maestro Figueiredo

Goa foi berço de músicos de renome. Nunca cheguei a vê-lo, mas apreciei-o de longe. António Fortunato de Figueiredo, filho de Gabriel de Figueiredo e Ermelinda Parras e Figueiredo, nasceu em Nacorda, em Loutolim, concelho de Salcete, distrito de Goa, antigo Estado da Índia, em 20 de agosto de 1903. Durante os estudos primários deu os primeiros passos na aprendizagem dos rudimentos da música na escola paroquial, ‘solfeggio’, sob a orientação do “mestre (mestiri)” da igreja de Loutolim. Teve precedentes musicais no seio da sua família: a mãe cantava e tocava bandolim, o pai era bom soprano, o irmão Francisco tocava viola e o irmão Sebastião tocava violoncelo. Gostava de ouvir as tradicionais salves e ladainhas, com os cantores e o “mestre” da paróquia com o violino. Tendo completado o curso do Liceu nacional em Pangim, seguiu em 1927 para Lisboa com o intuito de prosseguir os estudos superiores, tendo-se matriculado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas como estava vocacionado para a música interrompeu o curso de letras e matriculou-se no Conservatório Nacional de Lisboa, onde concluiu os seus estudos de violino em 1932 com louros. Ele ja tinha aprendido a tocar violino enquanto aluno do Liceu. Daí foi para a Universidade de Paris (Sorbonne), onde estudou Harmonia e Composição e Musicologia.

Regressou em 1936 a Goa, onde foi nomeado professor do Canto Coral no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, em Pangim, onde organizou e dirigiu o Orfeão e a Tuna. Com seus concertos em Pangim e Loutolim, angariou fundos para obras de assistência ao Albergue de Loutolim e na luta contra a lepra e tuberculose em 1946. E curioso ouvir que no exame pedia o aluno cantar a cancao “O Papagaio Verde de Bico Doirado”, e se o examinando nao pudesse entoa-lo, batia com a régua sobre a mesa e berrava: “Tu cantas pior do que uma gralha!“.

Após a Segunda Guerra Mundial, seguiu para Paris em 1948, com uma bolsa de estudo concedida pelo Governador Geral de Goa para se aperfeiçoar na arte de dirigir uma orquestra. Estudou a arte de direcção no  Conservatório Nacional Superior de Música em Paris, sob a orientação do maestro Eugène Bigot. Ele continuou os seus estudos na Accademia Musicale Chigiana em Siena na Itália, sob a orientação dos maestros Paul Van Kempen e Alceo Galliera. Em Florença dirigiu a Orquestra, l’Orchestra del Maggio Musicale Fiorentino, como maestro convidado. De regresso a Lisboa, o Maestro dirigiu a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional de Lisboa.

Embora tivesse prospectos na Europa, o jovem Maestro Figueiredo preferiu regressar a Goa para trabalhar em prol dos seus conterrâneos e melhorar a qualidade de música. No início de 1952, com o auxilio do Governo português ele fundou a Orquestra Sinfónica de Goa e deu o seu primeiro concerto em 16 de fevereiro de 1952. Com a meta de ensinar música clássica ocidental aos jovens goeses ele fundou, com o auxílio do Governo, a Academia de Música da India Portuguesa no edifício, bastante modesto, no bairro das Fontainhas, perto da Escola Imaculada Conceicao–onde existira uma “Farmácia Figueiredo”, pertencente a uma outra família com o mesmo apelido. Embora a Academia tenha funcionado neste pequeno bairro, o ensino da música prosperou sob a batuta do maestro Figueiredo até 1977. O último concerto dado pelo Maestro Figueiredo com os alunos da Academia e da Orquestra Sinfonica de Goa foi a opera La Traviata de Giuseppe Verdi. Depois da “libertação” (ou “invasão”) de Goa em 19 de dezembro de 1961 a Academia foi integrada na Kala Academy no Miramar, em Pangim. Apesar de empecilhos a Academia sobrevive até hoje. Os pioneiros da Academia foram, juntamente com o Maestro Figueiredo, Alfredo da Gama (piano), Espírito Santo Mascarenhas (violoncelo) e Lourenço Menezes (solfeggio).

A Orquestra Sinfónica de Goa deu inúmeros concertos em Goa sob a batuta do Maestro António de Figueiredo. Podemos realçar o concerto por ocasião das festas comemorativas do quarto centenário da Morte de S.Francisco Xavier em 6 de dezembro de 1952, a que assistiram o Cardeal Manuel Goçalv es Ceverejeira , Patriarca de Lisboa, que foi Legado a latere do Papa Pio XII, o Patriarca de Goa, D. José da Costa Nunes, o Governador Geral do Estado da India, Paulo Benard Guedes, D. José Vieira Alvernaz, Arcebispo de Anasartha e Coadjutor do Patriarca das Indias, Ministros da Justiça de Espanha e de Portugal, D.Antonio Iturmendi Banales, acompanhado da sua Esposa, D. Rita Iturmendi, e Dr. Manuel Cavaleiro Ferreira, respectivamente; o concerto numa “récita de caridade” em prol da Assistência aos tuberculosos da Índia Portuguesa, organizada pela Srª D. Maria dos Prazeres Alvim. e o concerto aquando da visita do Primeiro Ministro Indiano, Pandit Jawaharlal Nehru, a Goa em 22 de maio de 1963. Estes concertos foram radiodifundidos pela Emissora de Goa, de modo que eram acessíveis não só em Goa, mas também em Damão e Diu, como também aos emigrantes goeses na África Oriental, Golfo Pérsico e Extremo Oriente.

Em fevereiro de 1977 devido aos achaques da idade, deixou a carreira profissional. A direcção da Orquestra Sinfónica assim como a da Academia de Música passou ao Maestro Doutor Padre Lourdino Paulino Barreto. Além do ensino de violino na Academia de Música, o Maestro Figueiredo proferiu numerosas palestras sobre a temática da Música e Musicologia, radiodifundidas pela Emissora de Goa, e mais tarde pela All India Radio, de Pangim, no programa “Renascença”.

Em maio de 1961 por proposta do Governador Geral General António Vassalo e Silva o Governo Português, em reconhecimento dos seus esforços para promover e difundir a música, condecorou-o com o grau de “Cavaleiro da Ordem de Sant’Iago da Espada”.

O Professor Maestro António de Figueiredo influenciou decisivamente a vida de jovens goeses como a do pianista internacional Noel Flores, Professor da Universidade de Música em Viena, depois de ter estudado em Madrid com Júlia Parodi, aluna de Ferrucio Busoni e mais tarde com a bolsa para “Hochschule fuer Musik und Darstellende Kunst” em Viena, onde foi aluno de Hans Graf e posteriormente de Dieter Wber, que mais tarde o convidou a ser seu assistente. Foi convidado para fazer parte de júris em competições internacionais de piano em Viena, Leeds, Tel-Aviv (Concurso Rubinstein), Leipzig (Concurso Bach), Africa do Sul, Itália, Chile, Espanha, Portugal e Grécia. Ele também dirige classes avançadas na Austria,  Reino Unido, Alemanha, Finlândia, Suécia, Coreia e Japão. Assim também deve muito ao Maestro Figueiredo a pianista Margarida Miranda, que estudou na Alemanha e depois de ser lá professora de piano regressou a Goa, onde é ao presente Directora da Academia de Música, hoje Departamento da Música Ocidental da Kala Academy em Pangim. Outra soloísta que deve ao Maestro é Leopoldina Figueiredo, de Margaã, que após estágio em Roma e uma digressão pela Europa, desde 1966 leccionou Canto na Academia de Música.

O Maestro António Figueiredo tem a seu crédito numerosas composições, arranjos musicais (como a “Rapsódia de Damão”), e cinco mandós. Ele orquestrou os dois hinos nacionais, a Portuguesa, “Heróis do Mar” e o Hino Nacional da India, “Jana, gana, Mana”, como também outros cantos folclóricos. O seu mérito foi também o de descobrir o talento musical latente na nossa pequena terra. Sob a sua batuta a Orquestra Sinfónica e a Sociedade Coral de Goa envidaram esforços titânicos para aperfeiçoar a musica ocidental no solo goês. Ele deu palestras sobre a Música e a História da Música na Emissora de Goa, antes de 1961, e quando a velha “Emissora de Goa” do regime português passou a denominar-se “All India Radio-Goa” em 1961, começou um programa semanal em idioma de Camões sob a rubrica de ‘Renascença”, onde ele continuou as suas conferências, como também no Instituto Vasco da Gama (hoje Instituto Menezes Bragança) e no Clube Nacional. Faleceu em 5 de novembro de 1981 na idade de 78 anos. Ele foi o primeiro maestro goês na música ocidental. A sua memória permanece não só na Kala Academy, mas entre os goeses apaixonados da música.

Dr. Ivo da Conceição e Sousa

Um pensamento sobre “Goa: Relembrando o Maestro Figueiredo

  1. Ex.mo Dr. Ivo da Conceição Souza,

    Escrevo como director da revista GLOSAS, periódico quadrimestral dedicado à divulgação da música de cultura lusófona. Tinha muito interesse em saber mais sobre o compositor e maestro Fortunato de Figueiredo e de lhe dedicar algumas páginas da revista numa futura edição. Aguardo expectante o seu contacto.

    Desde já muito agradecido,
    Cordialmente,
    Edward Luiz Ayres d’Abreu.

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