Vatasalá

Fonte: Filinto Cristo Dias, Esboço da História da Literatura Indo-Portuguesa, Bastorá, Goa, 1963, pp. 54-56

Nascimento Mendonça (1884-1926). Goês, natural de Colvale em Bardêz, inspirou-se no conjunto das tradições, costumes, crenças da Índia. Aproxima-se do lirismo de Rabindranath Tagore, prémio Nobel de literatura na Índia, mas também do satanismo voluptuoso de Baudelaire a quem se assemelha ainda pelo teor da sua vida de boémio. Houve quem comparasse Vatsalá com a peça dramática “Salomé” de Oscar Wilde.
Vatsalá marca talvez o acume do seu talento poético. É um poema de grande densidade emocional. Tem por objecto uma donzela indu, do mesmo nome da obra, dotada de extremada formosura e que desgraçadamente traz na alma o labéu de pertencer à classe das bailadeiras, ou dançarinas profissionais dos pagodes e exercem prostituição. Aos 15 anos a mãe vende-a a um negociante brâmane e a infeliz, curvando-se diante do seu destino, vai-se arrastando pela ladeira do vício. Poucos anos depois, ao ver desfeito o sonho de amor que acalentava, romperá revoltada nestes lamentos:

Minha mãe deu-me o cetro infamante do Vício;
E pequenina era eu como um lótus abrindo,
Antes me dera o fel e o bárbaro cilício.

Em vão, em vão sonhei um sonho claro e lindo
Para o amor eu nasci… Que é feito do meu sonho?
Que é feito, Madeva! dos meus rosais florindo?

Da lua tinha a face e o coração risonho,
Todo cheio de sons e o loiro sol que ensalma
Meu coração morreu num temporal medonho.

Amei o homem, Devá; dei-lhe o mel da minha alma,
Mística e virginal como a alma da penhumbra
No seu senho vibrei flexível como palma.

E não sei donde vem o sol que deslumbra
Que de longe, ai tão longe, a fina mão me estende
E me embriaga de amor se em meus sonhos relembra.

Ah, porque sonha o céu a mulher que se vende?

Ora certo dia no alto dum verde monte, à sombra duma figueira, Vatsalá posa a vista sobre um rixi (um asceta indu), que se acha estendido, imóvel e semi-nu sobre uma pele de tigre e desde logo se apaixona doidamente por ele. E deitando-se de joelhos diante dele, declara-lhe:

Eis-me enfim a teus pés, suave e peregrina;
De perfumes ungi meu corpo de raínha,
E venho por teu beijo ardente que alucina.

………

Bem sei que tu és casto; e não vês que sou bela?
No meu amor serás como o rei triunfante
Que nunca teme a dor, porque pode esquecê-la.

Ao ver que se malogram todos os recursos de que lança mão para atrair o rixi ao seu amor, Vatsalá excogita o plano de tirar a vida ao asceta para poder, pelo menos, abraçar-se com o cadáver do amante. Consegue envenenar a malga de leite que todos os dias dão ao rixi que morre empeçonhado. Qaundo se vai proceder à cremação do cadáver do rixi, Vatasalá lança-se também na pira e as chamas envolvem os dois corpos.

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