Quanto duram as novas modas ortográficas?

Estávamos nas convulsões do Acordo Ortográfico quando na Feira do Livro de Lisboa descobri um manualzinho intitulado *Regras Gerays, breves & comprehensivas DA MELHOR ORTHOGRAFIA com que se podem evitar erros no escrever da lingua Latina, & Portugueza* ordenada pelo avthor della o P.  Bento Pereira da Companhia de Jesus, Qualificador do S. Officio.

O pequeno manual com dimensão de 14 cms x 9 cms, encadernado em couro, contém 81 pp. numeradas e 24 pp. não numeradas na parte final. O manual impresso em 1666, encontra-se em perfeitas condições, tanto quanto se pode esperar de livros antigos. Custou-me €125 e achei ser uma boa aquisição.

Existem hoje escolas dedicadas ao Padre Bento Pereira. Mas o próprio Padre Bento Pereira criou uma escola, que continuou a editar e publicar durante algumas décadas após a sua morte (1681) obras lexicográficas em nome de Bento Pereira.

Extraí cinco páginas deste manual de 1666 (ano anunciado por Padre A. Vieira para o advento do Quinto Império !). Elas podem ajudar-nos a reflectir sobre a relativa validade ou nulidade de tanta convulsão que se cria em volta da ortografia! Parturiunt montes; nascitur ridiculus mus.

Recomenda P. Bento Pereira que “devemos escrever, como pronunciamos, & pronunciar como escrevermos. D’outra maneyra serâ nosso escrever mentiroso. Porque se mente no fallar, quem falla contta o q entende, tambem mente no escreer, quem escreve contra o q pronuncia. E o bom Portuguez para ser totalmente verdadeyro, deve ter verdade no escrever, como a tem no fallar” (p. 29) Tudo isto contradiz alguns paladinos contemporâneos que temem que a nova ortografia vai fazer precisamente isto, reduzindo facto e acto ao fato e ato, e outros casos afins. Preferem etimologia à fonética.

A regra 12 na p. 73 não reserva o uso do ypsilon às palavras estrangeiras. Os vocábulos de intimidade familiar como “Pay” e Pays” e “Rey” levam o y.

É particularmente interessante o último parágrafo do manual: “ Acudase a hum erro q se vay introduzindo nas terceiras pessoas do singular dos verbos da segunda & terceira conjugaçam, escrevendo, v.g. offereceu, soffreu, moveu, amanheceu, devendo-se escrever offereceo, soffreo, moveo, amanheceo. FIM.”

Padre Bento Ferreira estará  a dar muitas voltas na cova se ele souber das voltas que a ortografia deu até hoje! Se os Portugueses dedicassem uma pequena fracção de tanta energia desperdiçada em ortografismos e no falejar para o que mais interessa, mais portugueses estariam hoje melhor na vida.

Teotónio R. de Souza

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