Metempsicose [Mariano Gracias]

É um poema que faz parte da colectânea de poesias de Mariano Gracias, intitulada Terra dos Rajas. Reproduz em verso uma lenda popular que ilustra a doutrina hindu-budista de transmigração das almas – sãsara!

Segundo a lenda o verme não se coformando com o seu destino roga a Brahma que o transforme numa flor e depois sucessivamente em borboleta, passarinho, águia, estrela, alma e, por fim, nirvana.

O verme

O verme disse um dia: Ó Brâma

Sendo vós da justica e da bondade a chama,

Destes a todo o ser sorte assim tão contrárias

E a mim, um ente igual, me fizestes, um pária!

Quem me dera ser flor, que é linda e tem olor!

E Brâma transformou o verme numa flor.
 
A flor

Acham-me linda, sim, mas presa ao solo estou!

Quem me dera subir ao azul, erguer voo

Qual leve borboleta!… Ó Brâma piedoso,

Dai-me sumo prazer, o suprassumo gozo

De no espaço livrar, qual alma de poeta!

E Brâma transformou a flor em borboleta.
 
A borboleta

E disse a borboleta arisca e ambiciosa

Triste destino o meu voar de rosa em rosa

E, eternamente muda, ouvir os passarinhos

Sempre a cantar, talvez saudades dos seus nihos…

Quem me dera cantar assim meiga e suave!

E Brâma transformou a borboleta em ave.
 
O passarinho

E o passarinho disse, em cima da palmeira:

Mais alto do que eu voa a águia ligeira.

Oh! como deve ser sublime e grandioso

Contemplar, lá do espaço, a terra e o mar formoso!..

Brâma, atendei a queixa, e o Vosso seio afague-a.

E Brâma trasformou o passarinho em águia.
 
A águia

A águia então falou, irónica e magoada:

Vejo diante de mim a abóbdada estrelada!

Oh! quem me dera a mim, a imperatriz do Azil,

Ser uma estrela assim, do Cruzeiro do Sul!

Uma estrela a luzir! Oh! que coisa tão bela!

E Brâma transformou a águia numa estrela.
 
A estrela

E suspirou a estrela, a estrela mais luzente:

Ó poderos Brâma! Ó Brâma complacente,

De que serve esta luz sem a do Sentimento.

Sem o grande clarão da luz do Pensamento!

Dai-me, pois, essa luz que só de Vós dimana.

E Brâma transformou a estrela em alma humana.
 
A alma

Falou por fim a Alma, em triste desalento:

Mas que aguda tortura a dor do Pensamento!

Antes eu fosse um verme, um simples infusório,

E da Dor não subira o grande promontório!

Sofri, lutei… Não há nada que me conforte!

Hoje só ambiciono a santa paz da Morte.
Oh! pudesse eu dormir na funda treva muda!
Brâma não se moveu.
Surge Buda, o grande pensador de larga fronte calma,

e com o seu Nirvana aniquilou a Alma!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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