Chegou a minha vez – ó mãe – é hora:
vou partir.
Quando amanhã a aurora
te visitar, na alcova, e a sorrir
vier p’ra ao pé de ti,
já não irás com os braços ao meu berço
pois te direi baixinho:
«o teu menino já não está ali…»
Mãezinha, vou-me embora…
Mas não vale chorar esta partida:
Que importa não me veres,
se poderás beijar-me a toda a hora,
se poderá sentir-me toda a vida!
Eu far-me-ei aragem delicada
e inundarei teu corpo de frescura
e de carícias brandas
eu entrarei na água perfumada
do teu banho,
e, quando o linho da toalha pura
te enxugar a carne
ardente
como a lava,
eu irei salpicá-la docemente
p’ra te lembrar os beijos que te dava…
Se à hora do repouso,
à luz do luar errante,
não dormires pensando no teu filho
e na tua mágoa enorme:
tarde, pela noite adiante
contar-te-ei do alto das estrelas:
– Dorme, mãezinha, dorme! –
Em noite de procela
no halo dum relâmpago, e no brilho
dum raio de luar
tu verás o sorriso do teu filho
luzir por entre as frinchas da janela…
Jamais te deixarei, sozinha, entregue
à tua dor…
Noite e dia
te seguirei os passos, como segue
à ovelha perdida o seu pastor.
Em tua companhia
eu estarei de tarde, ó minha Mãe,
rumorejando, ao pé, assim de leve,
entre as roupas do berço onde eu dormia.
E quando adormeceres com receio
pé ante pé, irei com muito jeito
e meter-me-ei no teu leito
e deitar-me-ei no teu seio…
Feito sonho,
entre as fendas da pálpebra cansada
hei-de descer ainda no próprio abismo
do teu sono tristonho;
e se tu depertares assustada
como nervosa, tímida gazela,
nos vidros da janela,
tu verás a brilhar
num pirilampo
a luz do meu olhar…
Na festa do Jayá,
quando as crianças
vierem, a correr, das vizinhanças
e se juntarem todas as brincar,
diluir-me-ei na música da flauta,
só para te embalar….
E se a Tia chegar
e te disser assim! «Teu filho lindo,
onde está ele que o não vejo ali?»
Tu aponta a menina dos teus olhos
e responde sorrindo:
— «Ei-lo aqui!»
[Pai do sindicalista Kalidás Barreto]
Aljustrel, Junho 1935
A obra do “Criador” não pode ter fim!…
Permanece, eternamente, no sonho que, constantemente, alimentamos.