Porque me buscas longe, nos espaços,
filho meu,
se eu vivo ao alcance dos teus braços?
Não me sentes na ervinha desprezada
que descuidoso, pisas?
No gineceu
onde o perfume oculta, envergonhada,
a delicada flor,
não me divisas?
Não te falam de mim as pombas mansas?
Não te dizem meu nome a fraga escura
e a espuma que a beija, à beira-mar?
Não me ouves nas vozes das crianças
a brincar?
Ó! não busques o rastro dos meus passos
no chão dum santuário!
Pode a pálida luz duma candeia
que arde, a crepitar, num lampadário
simbolizar o Fogo que os espaços
incendeia?
Acaso o ouro frio dum sacrário
pode dar-vos o calor,
conter a Vida?
A Vida!
Eu sou a Vida!
Sou a Verdade e o Amor!
Eu rebrilho na lágrima sentida
que nos olhos da viúva surge e rola
para o chão!
Eu sorrio no pão
que dás de esmola;
eu verdejo no musgo que a fraga
amacia;
vivo na mão que afaga
e no ventre que cria…
É minha a luz
que os rostos alumia
aos que morrem na Cruz!
É a minha a energia
que a garganta anima ao moribundo
que tombou sob a bala policial,
e a fez bradar ainda:
Viva o Ideal!
Sou valor em que luta a luta nobre,
sou o sonho da luz que sonha o pobre,
sou a dor de quem sofre a dor alheia!
Em tudo o que há de são sou a saúde,
em tudo o que há de bom sou a bondade,
sou a essência de tudo o que o céu cobre,
chama para a candeia,
ária para o alaúde,
suspiro para a saudade!
Porque me buscas longe nos espaços
filho meu?
Eu vivo ao alcance dos seus braços!
Adeodato Barreto n’ O Livro da Vida, Nova Goa, 1940
[ Ishvara= Senhor, Deus incarnado]