Bhagavad-Guitá [O Hino do Senhor]

É um episódio dialogado de 2800 versons ou padas, 700 estrofes ou padyas, e 18 lições ou adhyayas.

Faz parte do Livro VI, Bishma Parva, do épico Mahabharata, a maior epopeia do mundo, com 100 000 estrofes, contendo 400 000 versos, distribuídos por 18 Livros ou parvas. É sete vezes maior do que a Ilíada e a Odisseia juntas. A Índia tem também Ramayana, uma outra epopeia de 24 000 estrofes. Enquanto Mahabharata celebra os feitos do mítico rei fundador da Bharat (Índia), o Ramayana é o veículo da cultura e valores do hinduísmo na diáspora, quer interna no subcontinente indiano, quer externa nos países da “Grande Índia”, até ao sudeste asiático. Existem versões diferentes do Ramayana adaptadas aos cenários locais em diferentes regiões e países para onde os povos da Índia emigraram. Foi descoberto, reconstituído e impresso há poucos anos o Ramayana de Goa.

Na Bagvad-Guitá, Krishna e Arjuna represenam o Eu (Si) e o eu (ente vital). Krishna é a incarnação do deus Vishnu, o deus de manutenção. Conhecem-se 10 incarnações ou avatáras de Vishnu, e correspondem às crises da criação e da humanidade. Krishna e Arjuna estão no mesmo carro, símbolo do veículo do Ser no seu estado de manifestação e, enquanto Arjuna combate, Krishna segura as rédeas dos corcéis sem combater, ou seja, sem se envolver a Si próprio na acção. A batalha visada simboliza a acção de uma maneira geral, sob a forma apropriada à natureza e à função dos Kshatrias, casta guerreira. É uma concepção que se encontra também no Islão, no sentido real da guerra santa (jihad). A aplicação social e exterior é de ordem secundária, e apenas constitui a pequena guerra santa, ao passo que a grande guerra santa é de ordem puramente interior  e espiritual. Há portanto duas leituras possíveis da Bhagvad-Guitá, uma centrada na casta dos guerreiros e o seu dharma, e uma leitura universal, aplicável a todos os humanos na sua luta existencial. O campo da batalha ou kshêtra é o domínio da acção, através da qual um indivíduo desenvolve as suas potencialidades.  A acção não afecta em nada o Ser inicial (Átma) que permanece imutável , mas apenas diz respeito ao ente vital (dvijátma). Krishna e Arjuna estão no mesmo carro , como dois pássaros referidos nas Upanishadas (discursos metafísicos-teológicos da fase final do vedismo). Dois pássaros, companheiros inseparavelmente unidos, moram na mesma árvore: um come os frutos da árvore, o outro olha sem comer. Representam o dvijátma e o Atma.

A grande guerra santa consiste na luta do homem contra os inimigos invisíveis, ou seja, contra todos os elementos que, nele, contrariam a ordem e a unidade. O homem deve tender, acima de tudo e sempre para a realização da unidade e harmonia em si próprio: unidade e harmonia do pensamento e da acção. É para esse objectivo que servem a doutrina e a prática de Yôga (de origem indo-europeia jugum ou canga que controla e harmoniza o trabalho da junta de bois) para manter a harmonia entre o corpo e o espírito. Para quem atingiu a unidade nada perturba, nem dentro nem fora de si, não existe dicotomia. Apagam-se todas as oposições e antagonismos perante o olhar do Shiva (com o seu terceiro olho que simboliza o sentido da eternidade), substituindo a acção com desejos (sakama karma) pela acção sem desejos (nishkama karma). Como diz Budha, os desejos (tana) são a fonte de sofrimento (dukha). Ninguém escapa a necessidade de agir, mas agir em cumprimento das tarefas do seu estado (dharma),  sem qualquer outro desejo ou ambições, é o caminho da salvação (moksha). Constitui o núcleo da espiritualidade hindu.

Fonte:  Antonio Barahona (org.) Poema do Senhor (Bhagvad-Guitá), Lisboa, Relógio d’Água, 1996.

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