Os indo-europeus e as diferenças civilizacionais

Fonte: Octávio Paz, Vislumbres da Índia, Lisboa, Ed. Difel, 1998, pp. 82-34.

“ A base da civilização hindu é indo-europeia. A civilização que nasceu no vale do Indo, mais que uma origem, é um antecedente. Não desconheço, claro, que em Mohenjodaro e em Harappa aparecem prefigurações da cultura e religião da Índia, como um proto-Shiva, o lingam, o culto à grande Deusa e aos espíritos arbóreos. Seja como for, parece-me que a civilização do Indo, de que sabemos pouquíssimo, apresenta mais afinidades com a da Mesopotâmia. Por outro lado, quase não preciso de esclarecer que ao falar de indo-europeus não aludo a uma raça mas sim a realidades e conceitos linguísticos, culturais e históricos. A partir desta perspectiva, não há dúvida de que os aspectos característicos da civilização hindu são de origem indo-europeia: Os Vedas e as outras escrituras sagradas, a mitologia, a língua sacra e literárias, os grandes poemas, e por fim uma coisa decisiva: a organização social. Tenho de citar uma vez mais Georges Dumézil, que demonstrou as relações entre a mitologia indiana e a dos outros povos indo-europeus (celtas, iranianos, germanos, romanos, gregos), a origem indo-europeia do sistema de castas, e sobretudo a predominância da visão tripartida do mundo, presente tanto nos mitos como nas três funções e categorias sociais: sacerdotes, guerreiros e artesãos.

“Comunidade de origens linguísticas e culturais não quer dizer identidade de evolução. O desenvolvimento da civilização da Índia pode ver-se como um caso de simetria inversa à do Ocidente. Na história da Índia antiga não surgem acontecimentos de significado e consequências parecidas com os da difusão do helenismo e da dominação imperial de Roma. O helenismo unificou as elites dos povos mediterrânicos e das antigas civilizações do Próximo e Médio Oriente; Roma completou a obra de Alexandre Mago e dos seus sucessores transformando este universalismo cultural – filosofia e ciência, artes e literatura – numa realidade política, económica e administrativa. A influência foi recíproca: Roma unificou o mundo e as elites adoptaram a cultura e o pensamento greco-romanos; os povos submetidos às instituições políticas de Roma, por sua vez, influíram nos seus dominadores através das suas religiões e divindades.

“Na Índia, pelo contrário, o processo de unificação dos diversos povos e culturas do subcontinente não foi obra de um Estado imperial e de uma cultura predominantemente filosófica e literária como a grega, mas da expansão religiosa do hinduísmo e do budismo. O Estado foi o protagonista central da Antiguidade mediterrânica: reis, césares, cônsules, generais, oradores, administradores; na Índia os agentes históricos foram os reformadores religiosos e os seus adeptos e discípulos, as corporações sacerdotais, as seitas e os monges, quase sempre aliados ao poder de uma dinastia, uma casta ou um grupo como o dos mercadores urbanos que protegeu o budismo. Num caso, primazia do político; no outro, do religioso.

“O grande ausente da Índia clássica foi um Estado universal. Este facto marcou a história da Índia até aos nossos tempos. É o facto central e o que decidiu a história do subcontinente. Os três grandes impérios históricos, o Maurya, o Gupta e o Mongol nunca dominaram todo o continente. A história política da Índia foi sempre a de monarquias rivais, em luta permanente umas contra as outras. Só a partir do século XIX, com o Império Inglês, os povos da Índia foram governados por um poder central e com jurisdição sobre todo o território e o seus habitantes.

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