Aljubarrota e a crónica de Froissart: Uma matança santa!

 

 
O evento que só muito mais tarde se designará por batalha de Aljubarrota – consagrando-se um lugar bastante distanciado do centro dos acontecimentos – parece ter-se desenrolado em dois tempos distintos. E há notícia de que, entre esses tem­pos, ocorreu no cabeço, por acção dos aliados anglo-portugueses, um episódio tenebroso. Dois dos três cronistas principais deste dia, o português e o castelhano, guardaram sobre o caso um silêncio de túmulo. Só o cronista francês – Froissart, um andarilho infatigável que passa a vida no encalço dos protagonistas das suas histórias para lhes captar os testemunhos – menciona o assunto em traços coloridos mas pungentes. Segundo ele, a peleja inicia-se, ao cair da tarde, por uma carga a cavalo das van­guardas francesas de Juan I. Por que motivo galopam sozinhos os Franceses rumo ao cimo do cabeço? Provavelmente por simples descoordenação. Ou, então, pelo afã de reivindicarem as honras de varrer do planalto, sem ajudas, este aglomerado provocador de soldados bisonhos. Os sobreviventes da investida afi­ançarão depois que os Castelhanos se atrasaram em prestar-lhes apoio, mas não consta que os responsáveis do ataque se hajam empenhado em agir de acordo com os seus aliados. O mais crível é que os cavaleiros se tenham atirado irreflectidamente para diante, buscando, sem precauções de maior, o seu instante de glória nesta campanha monótona em que não ocorreu ainda nada de notável. De qualquer maneira, sob a chuva de projécteis dos atiradores inimigos, eles cedo se descob­rem tolhidos pelas armadilhas preparadas de antemão. Forçados a desmontar, en­volvem-se num combate desigual com as tropas entrincheiradas e, cercados, não demoram a render-se, caindo às centenas nas mãos dos inimigos. Neste momento, no cabeço, toda a gente se mostra satisfeita: os prisioneiros, porque salvaram as vidas; os defensores, porque os resgates dos fidalgos lhes vão decerto render uma fortuna. De súbito, o clima torna a anuviar-se. Conhecedores do desaire francês, os Castelhanos parecem estar a organizar-se para o ataque principal. Os Portugueses e os seus aliados convencem-se de que correm o risco de enfrentar a mais po­derosa das investidas com uma chusma de prisioneiros postados nas suas costas. O quadro de soluções apresenta-se-lhes, pois, dramaticamente limitado: ou matam ou morrem. A sentença surge rápida e crua – nem um só dos Franceses pode ser deixado com vida. Então, enquanto os Castelhanos se afadigam em preparativos, os prisioneiros são executados, um a um, pelos defensores do cabeço.
 

 

(José Bento Duarte – Peregrinos da Eternidade – Crónicas Ibéricas Medievais – Editorial Estampa – Lisboa – 2003)
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 pensamentos sobre “Aljubarrota e a crónica de Froissart: Uma matança santa!

  1. Não era Nuno Álvares Pereira o anfitrião da campanha? Que belo modelo para os que actualmente conhecemos como Jihadis de Al Quaeda! Se houvesse um cardial árabe no Vaticano já seriam canonizados alguns Jihadis!

  2. Não seja mauzinho Sr. Shivshakti,
    A santidade dos humanos não é muito linear. Diz-se mesmo que os melhores santos são os santos mortos, porque é muito dificil conviver com os santos na vida! Mas estou de acordo consigo no que diz respeito aos interesses políticos envolvidos nesses processos de canonização. Se um santo é apresentado como um modelo espiritual para a sociedade actual, teremos que esperar para convencerem o público de que a vida deste guerreiro medieval que se fez monge representa um desafio para os tempos em que vivemos. Enquanto isto não aconteça duvido que nem a Casa Real dos Braganças poderá elevá-lo ao altar. Há muitos veneráveis que ficaram pelo caminho, embora passem por “beatos” na tradição local.

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