Como é o Pensamento contemporâneo africano?

 

Entrou ontem na minha caixa de e-mail uma mensagem de Madalena Sebastião. Não sei quem seja esta remetente, mas não importa.  O que pede é importante: Quer algumas indicações bibliográficas sobre o tema em epígrafe. Na obra recentemente coordenada pelo Prof. Doutor Fernando Santos Neves, Introdução ao Pensamento Contemporâneo (Lisboa, Edições Lusófonas, 2007), colaborei com um texto (ensaio n. 14) com achegas para uma Filosofia de Interculturalidade. Mesmo com muito interesse, senti que eu não tinha competências para aventurar a avaliar o pensamento contemporâneo africano. Fiquei pelo pensamento oriental que conheço melhor.  Mas de uma maneira geral (deixando a avaliação específica aos peritos africanólogos) sou de opinião que todo o pensamento humano contemporâneo ( e não só) é também africano, se é que se confirma que a espécie humana dispersa pelo mundo todo é de origem pré-historicamente africana!

Os grandes pensadores do nacionalismo foram do Norte de África – Habib Bourguiba da Tunísia, Gamal Abdel Nasser do Egito e Mohamed V do Marrocos enquanto os ferrenhos pan-africanistas estavam mais ao Sul – Hailé Sellasié da Etiópia, Jomo Kenyatta do Quénia, Keneth Kaunda da Zâmbia, Ahmed Sekou Touré da Guiné-Conakry, Modibo Keita do Mali, Julius Nyerere da Tanzânia e, o maior deles todos, Kwame Nkrumah de Gana.

 As lutas de libertação nacional, também tinham um espaço importante no imaginário dos intelectuais africanos, mas menos influencia. Conhecem-se os ciúmes de Senghor e Sekou Touré em relação ao protagonismo de Cabral. Esses movimentos influenciavam o pensamento dos intelectuais e davam um foco claro às reivindicações internacionais africanas. Só a libertação da África do Sul do regime de apartheid encerrou esse foco, que durou varias décadas. Paradoxalmente essas lutas serviam de ponte entre os princípios nacionalistas e os princípios pan-africanistas. As lutas da Argélia, das colónias portuguesas e mais tarde da Rodésia e África do Sul, serviram de atracção para as relações internacionais do continente.

A visão política dos intelectuais africanos sempre foi ambígua em relação à democracia. Quando se estabeleceu a Associação Africana de Ciências Políticas, AAPS, em Dar-es-Salam, de cujo directório viriam a sair muitos dirigentes políticos africanos, o foco era a análise de classe. A influência de Amilcar Cabral foi muito forte. As suas teorias sobre as elites e a pequena burguesia influenciaram as análises.

Tanto em Dar-es-Salam como em Dacar havia um ambiente cosmopolita, com intelectuais vindos de muitos outros países, patrocinados pela benevolência intelectual dos Presidentes Nyerere e Senghor. A acolhida às ideias de Frantz Fanon, Amílcar Cabral e outros nacionalistas pensantes era grande. A contribuição da nova vaga de historiadores africanos como Joseph Ki-Zerbo e Cheikh Anta Diop aumentavam a vontade de mostrar uma África de pirâmide invertida: em vez da inferioridade, lisonjear uma certa autenticidade que dava um carácter humano superior aos africanos. Era um momento de vanguarda, onde as lutas africanas contra os restos de colonialismo e o apartheid e em favor de um mundo mais justo faziam manchetes positivas. E as primeiras décadas de independência produziram crescimentos espectaculares nos países africanos, mostrando aí também uma imagem positiva de reversão de tendência.

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Teotónio R. de Souza 

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