Lições de historiografia – G. Vico

Partindo da noção de que o homem conhece a si mesmo enquanto produto humano, Giambattista Vico abria vias de acesso para o conhecimento da história passada. Através da experiência de pertencer ao gênero humano, o historiador podia entender culturas e povos diferentes na medida que se despojasse de suas particularidades históricas e partilhasse com eles a experiência de ser humano. O historiador podia conhecer a vida desses povos, na medida em que as suas realizações e fracassos eram produtos do fazer humano. Vico erigia a prática e a experiência como fundamentos para o entendimento humano.

Do princípio verum/factum Vico extraiu importantes desdobramentos para o conhecimento da história. A história – um produto do fazer humano – era o objecto por excelência do conhecimento humano. Assim, o processo histórico era encarado como um fazer onde os seres humanos elaboravam sistemas de linguagem, costumes, leis, governos, etc.; isto é, a história era vista como gênese e desenvolvimento das sociedades humanas e das suas instituições. Observe-se que a filosofia da história de Vico não admitia nenhuma antítese entre acções humanas e plano divino, como ocorria com o pensamento histórico na Idade Média. Como observou Collingwood:

“(…) o plano da história é um plano completamente humano, mas não pré-existe sob a forma de uma intenção irrealizada e que se destina a ser gradualmente realizada. O homem não é um simples demiurgo, modelando a sociedade humana como o Deus de Platão formava o mundo, de acordo com o modelo ideal; como o próprio Deus, o homem é um verdadeiro criador, dando a vida quer à forma, quer à matéria, dentro do processo coletivo do seu desenvolvimento histórico. A criação da sociedade humana pelo homem, a partir do nada, e todos os fenômenos desta criação são assim um factum humano, eminentemente cognoscível, como tal, pelo espírito  humano.” (Collingwood, s/d: 89-90) 

 Uma vez resolvida a questão de saber como é possível o conhecimento histórico, em geral, Vico procurou, no curso de suas pesquisas históricas sobre períodos remotos e obscuros da humanidade, solucionar questões de ordem metodológica. Para tanto, traçou uma clara concepção do método histórico e elaborou regras precisas para sua aplicação. Era a sua Nova Ciência.

Em resumo, as regras do método histórico de Vico se escoravam em duas vias de acesso ao conhecimento de outras épocas: o da analogia e o da imaginação reconstrutiva, e entendo que estes procedimentos estavam bastante entrelaçados, de modo que um complementava o outro. O procedimento analógico consistia em identificar em certos períodos históricos um carácter geral, dando determinado aspecto a cada pormenor que reaparecia em outros períodos. Isto significava, em outras palavras, que era possível fazer analogia entre um período e outro, uma vez que ambos possuíam, para além de suas especificidades próprias, o mesmo carácter geral. Exemplificando este ponto, Vico sugere semelhanças genéricas entre o período homérico da história grega e a Idade Média européia. Os traços comuns a ambos os períodos seriam nomeadamente um governo constituído por representantes de uma aristocracia guerreira, economia agrícola, literatura de baladas, moral fundamentada na idéia de coragem e lealdade pessoais, etc. Desta forma, Vico concluía que para se saber mais sobre um determinado período, além daquilo que as fontes podem informar, podemos proceder analogicamente a partir do estudo de períodos semelhantes, mas historicamente situados em outro estágio da evolução humana.

A aplicação do método analógico permitiu a Vico estabelecer algumas conclusões sobre o processo histórico. Em primeiro lugar, concluiu que a história da humanidade era governada por leis. Não as leis simples, eternas e intemporais defendidas pela concepção jusnaturalista do século XVIII. Diferentemente dos adeptos do jusnaturalismo – que buscavam as leis do ser e do durar – Vico buscou e acreditou encontrar as leis da evolução:

 “Em lugar do princípio de que o ser da natureza humana retorna e é substancialmente invariável, surge o princípio de que a mudança da natureza humana reproduz incessantemente determinadas formas universais e é, substancialmente, invariável. Em uma casca rígida põe um conteúdo dinâmico.” (Meinecke,1980: 65)

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