Lições de historiografia – Marc Bloch

Algumas vezes se disse: “A História é a ciência do passado”. É erro dize-lo, em meu entender.

Primeiro que tudo, a própria ideia de que o passado, como tal, possa ser objecto de ciência é absurda. De fenómenos cuja característica comum é não terem sido nossos contemporâneos, como faremos, sem decantação prévia, matéria de um conhecimento racional? Será possível imaginar, simetricamente, uma ciência total do universo no seu estado presente?

É certo que nos primórdios da historiografia os velhos avalistas se não embaraçavam com escrúpulos desta ordem. Contavam, a trouxe-mouxe, acontecimentos cujo único vínculo era terem ocorrido pela mesma altura: eclispses, granizos, mortes de heróis e de reis. Mas nesta primeira memória da humanidade, confusa como uma percepção de criancinha, um esforço firme de análise, realizou pouco a pouco a classificação necessária. É verdade que a linguagem, basilarmente tradicionalista, conserva naturalmente o nome de “história” para todo o estudo de uma mudança na duração… O hábito não tem perigo porque não ilude ninguém. Há, neste sentido, uma história do sistema solar, pois que os astros que o constituem não foram sempre como hoje os vemos. É do foro da astronomia. Há uma história das erupções vulcânicas que é, estou certo disso, do maior interesse para a física do globo. Não pertence à história dos historiadores.

Ou pelo menos, não lhe pertence salvo na medida talvez, em que sucedesse que as suas observações pudessem, de uma maneira ou outra, encontrar-se com as preocupações específicas da nossa própria história. Como se institui, na prática, a divisão das tarefas? Um exemplo vai premitir compreende-lo melhor do que o muito discorrer.

No século X da nossa era, um golfo profundo, o Zwin, recortava a costa flamenga. Depois assoreou-se. Em que secção do conhecimento havemos de situar o estudo deste fenómeno? À primeira vista, toda a gente designará a geologia. Mecanismo de formação de aluviões, papel das correntes marítimas, modificações, talvez, no nível dos oceanos: não foi a geologia nada e criadas para tratar de tudo isto? Decerto. Vistas, porém, mais de perto, as coisas não são assim tão simples. (…)

A pouca distância do fundo do golfo erguia-se uma cidade. Era Bruges. Comunicava com o golfo por um pequeno braço de mar. Pelas águas do Zwin recebia a maior parte das mercadorias que faziam dela, guardadas todas as proporções, uma Londres ou uma Nova Iorque daquele tempo. Tornaram-se cada dia mais sensíveis os progressos do assoreamento. À medida que recuava a superfície inundada, Bruges bem encaminhou progressivamente para a foz os seus anteportos; os seus canais, não obstante, foram a pouco e pouco adormecendo. É certo que não foi esta de maneira nenhuma a única causa do seu declínio. Pode o físico agir sobre o social sem que a sua acção seja preparada, ajudada ou permitida por outros factores que procedem já do homem? Mas, no curso das ondas causais, é indubitável que aquela foi uma das mais eficazes.

Ora, a obra de uma sociedade que remodela o solo em que vive conforme as suas necessidades é, toda a gente o sabe por instinto, um facto eminentemente “histórico”.

Fonte: M. Bloch, Introdução à História, Mem Martins, Publ. Europa-América, 1993.

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