O REGRESSO À GUERRA FRIA?

Comentário ao artigo de Adriano Moreira[1] “O Saber de Sempre”, Diário de Notícias de 16/09/2008, pág. 10, 1ª. -3ª. cols.

 

O autor deixa-nos,  neste artigo, a análise de um acontecimento que marcou a política internacional durante largo espaço de tempo e cujos reflexos se repercutirão no comportamento de todas as nações envolvidas com o mais que provável agravamento das relações entre si.

A Rússia invadiu a Geórgia, uma das repúblicas que se encontravam sob o domínio soviético até à Perestroica na sequência, de resto, de outras acções agressivas por parte de Moscovo, de que são exemplo os cortes de energia à Ucrânia, Bielorrússia, e Geórgia e oataque cibernético” contra os  seus sites na Internet após a polémica retirada de um monumento de guerra soviético do centro da capital do país, Tallin.

            O grave incidente trouxe à memória de todos os longos anos de inquietação vividos durante a guerra fria.

Quando parecia que o Ocidente se preparava para uma resposta enérgica, a moderação regressou passando a utilizar-se uma linguagem mais prudente.

            E se a Geórgia fizesse já parte da NATO? O autor aceita que, nesse caso, “as circunstâncias teriam sido mais angustiante” tendo em conta que uma intervenção ocidental seria pouco provável o que não deixaria de lhe acarretar grande descrédito.

            Esta acção da Rússia tem subjacente a intenção de contrariar a supremacia da NATO, substancialmente alargada com a entrada dos seus antigos  satélites. Estes, por sua vez, como refere o autor, acolhem de bom grado esses alargamentos, olhando-os como um espécie de escudo contra os projectos hegemónicos dos seus antigos senhores.

            Mas como serão avaliados os alargamentos que a NATO se propõe fazer? A experiência vivida fará, por certo, meditar os responsáveis ocidentais no sentido de encontrar soluções diferentes, menos provocadoras do “descontrole russo”.

Adriano Moreira socorre-se da opinião abalizada   de Jean-Marie Ghéhenno, secretário-geral adjunto da ONU, ditada pela sua experiência. De acordo com   o mesmo, a força conta “porque é essencial conseguir respeito no terreno, e só a força pode ajudar a consegui-lo”; porém, a paz só se consegue através de “um processo político”. Esta solução, face à capacidade de risco dos invasores da Geórgia,  não parece muito animadora.

            O autor relembra o apelo do secretário-geral Ban Kimoon, a propósito da Intervenção do Tribunal Penal Internacional,  no sentido de não se sacrificar a justiça à paz, defendendo que “acima de tudo, a busca de um equilíbrio entre a justiça e a paz nunca deve ser influenciada pelas ameaças e a atitude dos que tentam escapar à justiça”.

No entanto, a aplicação deste conceito não se mostrou, até agora, capaz de alcançar resultados satisfatórios. Adriano Moreira aponta vários exemplos de situações em que as intervenções efectuadas em territórios onde os direitos humanos são permanentemente violados e a justiça não tem aplicação, não provocaram melhorias assinaláveis.

            A finalizar o seu artigo, extrai uma conclusão que parece bem evidente: as dispendiosas intervenções em recursos materiais e humanos,  as inúmeras intervenções militares sem qualquer utilidade, as infindáveis perdas de vidas, de futuros e de esperanças demonstram que “a paz continua a ser um processo estritamente político” e que, como a Unesco avisa “a guerra começa no coração dos homens”.

            O pensamento de Adriano Moreira vai no sentido da opinião praticamente unânime dos analistas de que a invasão da Geórgia se insere nos propósitos da Rússia de reconquistar o seu antigo espaço hegemónico a qualquer custo.

Tal desiderato terá, muito provavelmente, como consequência inevitável o retorno à Guerra–Fria.     


[1] Jurista, político e professor universitário  nascido em 1922 em Benfeito, Macedo de Cavaleiros. Desde jovem que assumiu diversos cargos públicos, tendo sido figura destacada do Estado Novo no âmbito da política colonial: foi Ministro do Ultramar, tendo o seu mandato ficado  assinalado por um importante conjunto de acções jurídicas, diplomáticas e de aprofundamento cultural e social. Depois do 25 de Abril, tornou-se uma figura parlamentar altamente respeitada. É autor de um conjunto diversificado de obras. Retirou-se da vida política em 1995, data a partir da qual passou  a dedicar-se ao ensino, à investigação e a escrever sobre a conjuntura portuguesa, política, relações internacionais e direito.

 

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s