Portugal também colabora nos projectos espaciais

Portugueses vendem cortiça e bússolas à NASA

Há várias empresas nacionais a produzirem para os projectos espaciais, como a NASA ou a europeia ESA.

António Sarmento
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Na pequena vila de Águas de Moura, no Alentejo, existe uma árvore que conquistou a agência espacial americana (NASA). Chama-se “Assobiador” e é o mais antigo e produtivo sobreiro do mundo. Tem 300 anos, 14 metros de altura e pertence à empresa Amorim Cork Composites, do empresário Américo Amorim, o mais rico de Portugal segundo o ‘ranking’ da revista “Forbes”. A cortiça que esta árvore produz – que pode ir dos 650 aos 1200 quilos, dez vezes mais do que a produção normal de um sobreiro – é fundamental para o revestimento de foguetões, satélites, sondas e ‘space shuttles’. “Resiste a temperaturas de dois mil graus, é um material muito leve e maleável e, mesmo quando entra em combustão, isso acontece de maneira muito lenta e sem perda de forma”, explica Alexandre Pereira, engenheiro da Amorim Cork Composites.

A cortiça tem, por isso, o perfil ideal para sobreviver a ventos solares, radiações cósmicas e amplitudes térmicas. Sabendo disso, o grupo Amorim viu na NASA uma oportunidade de negócio. Em 1995, comprou uma empresa americana, a GTS, que já vendia cortiça para a agência espacial. “É um bom cartão de visita. Se a agência utiliza a cortiça em veículos e missões espaciais, mais facilmente esses produtos serão usados pelas indústrias aeronáutica, ferroviária e naval”, explica Nuno Faria, director de marketing da empresa.

Por isso, o objectivo é estabelecer parcerias, como a que foi acordada em 2007 com a Airbus. As peças para a fuselagem dos aviões são feitas a partir da cortiça portuguesa. A Amorim Cork Composites facturou no ano passado 85,7 milhões de euros e, menos de um por cento deste valor, (aproximadamente 850 mil euros) veio dos negócios com a NASA. Com a agência espacial europeia (ESA), a empresa tem um projecto de investigação. “A cortiça ainda tem muito potencial para ser descoberto”, conta Alexandre Pereira.

Até chegar ao espaço, esta matéria-prima tem de passar por diversas fases de transformação. Depois de ser extraída dos sobreiros plantados na região do Alentejo é transportada em camiões para a fábrica da Amorim, na freguesia de Mozelos, em Santa Maria da Feira. A seguir, é colocada em máquinas trituradoras, para ficarem em pequenos grânulos. O produto final, que faz lembrar uma gigantesca duna do deserto do Sara, é guardado em armazéns e, posteriormente, embalado em volumosas sacas. “Por fim, partem em navios a caminho da nossa fábrica, nos arredores de Chicago. Ali, os grânulos são misturados com resina e transformados em placas próprias para o revestimento dos veículos espaciais”, conta Alexandre Pereira.

Boas notícias por e-mail

A NASA também gosta de surpreender. Em 1998, os co-fundadores da empresa Critical Software – Gonçalo Quadros, Diamantino Costa e João Carreira – receberam um email da agência espacial americana. Os três investigadores estavam a terminar o doutoramento em engenharia informática e a agência ficou fascinada com um programa criado por eles, o Xception. Antes de cada missão espacial descolar, este programa provoca milhões de falhas possíveis num sistema que, por exemplo, integra um satélite ou ‘space shuttle’. Isto significa que, quando estiverem em contacto com os ventos solar, radiações e outras dificuldades reais, os sistemas conseguem solucionar rapidamente os problemas. “O Xception permite a simulação de um conjunto infinito de falhas. Com isto, as agências espaciais evitam perdas humanas e gastos desnecessários de dinheiro, pois podem corrigir eventuais problemas ainda no solo”, explica Bruno Carvalho, responsável da Critical pelo desenvolvimento de negócios para a área do espaço.  

Trabalhar com a NASA abriu muitas portas à empresa fundada pelos estudantes universitários. A instalação de uma filial em Silicon Valley, na Califórnia, era vital para a manutenção do negócio com os americanos. “O Xception é uma tecnologia de duplo uso: tanto serve para o espaço como para ser aplicado noutros mercados como a banca, energia, governo e defesa”, diz Bruno Carvalho. A Critical criou ainda outro projecto para a agência espacial americana, o Space Aqua.

“Permite verificar e validar a robustez de todos os módulos de software necessários a um sistema crítico, como os que integram as missões espaciais, garantindo que todos os componentes se encontram bem integrados”, acrescenta o responsável. As agências espaciais japonesa (JAXA) e chinesa (CSA) também se tornaram clientes destes produtos. Para a ESA, por outro lado, a Critical lançou um programa chamado PremFire, que através de imagens de satélite, também pode ser usado pela protecção civil e serviços de bombeiros na coordenação do combate e prevenção de incêndios.

A diferença de poder entre a NASA e a ESA é bastante significativa. A começar pelo orçamento. O da agência americana é de 9,6 mil milhões de euros/ano, ao passo que o da europeia é de 2,9 mil milhões de euros. Em relação ao investimento espacial per capita a discrepância é a mesma. Em média, cada cidadão de um país membro da ESA (17 Estados membros da Europa) paga, em impostos para gastos com os programas espaciais, o equivalente a um bilhete de cinema (5 euros). Nos Estados Unidos, o investimento em actividades espaciais por habitante é quase quatro vezes superior, perto dos 20 euros.

Uma bússola no espaço

Metade da facturação conseguida no ano passado pela empresa Edisoft, com sede no Monte da Caparica, na margem Sul do Tejo, chega do espaço. Esta empresa criou para a NASA um sistema de monitorização dos oceanos através da observação e recolha de dados por satélite. “Podemos seguir todos os passos de um navio que esteja em águas americanas. Calculamos ainda o rumo e a velocidade. Isto significa que todos os movimentos suspeitos são detectados, como descargas de crude ou entrada de materiais ou pessoas em alto mar”, explica Rodrigues Sousa, director da Edisoft.

A informação chega à agência espacial que depois a distribui por outros departamentos americanos como é o caso da Homeland Security – o departamento de segurança nacional. O mesmo sistema é usado nas missões dos foguetões Ariane 5, lançados pela ESA. A Edisoft, que supervisiona a Estação de Satélite Nacional de Observação da Terra, na ilha de Santa Maria, nos Açores, controla a trajectória do foguetão ao milímetro. “É por uma questão de segurança. Quando passa por Portugal sabemos tudo o que está a acontecer”, acrescenta o responsável da Edisoft.

Para que os satélites ou ‘space shuttle’ não fiquem confusos é preciso que haja orientação a bordo. A Lusospace, que fabrica magnetómetros (bússolas espaciais), sabe como isso se faz. “Permite saber a direcção do campo magnético à volta do satélite. Se está orientado para a Terra ou para o Sol. No fundo, estamos a fazer o mesmo que os antigos navegadores”, explica Ivo Vieira, o fundador da empresa. Para já, as bússolas estão instaladas em dois satélites de observação do planeta: um que tira fotografias e outro que mede a velocidade do vento. Outro dos projectos que já está concluído foi o de colocar no visor do capacete dos astronautas um sistema electrónico, que “permite dar informações gráficas sobre o campo de visão, a temperatura e os níveis de oxigénio”, diz Ivo Vieira.

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