Moçambique e a Índia

mocambique  Inicialmente, e quase até ao fim do século XVIII,  Moçambique fez parte da ponte marítima que ligava Portugal à Índia na rota do Cabo.  Foi quase uma colónia da Índia portuguesa. As raízes do comércio indiano dos baneanes de Gujarat com Moçambique precedem a chegada dos Portugueses. Traficavam em marfim, ouro e escravos. Em troca a Índia dava-lhes coral e peças de algodão. Pedro Machado e Eugénia Rodrigues são os investigadores portugueses mais novos que têm estado a actualizar essa ligação.  José Capela deixou-nos anteriormente obras que permitem acompanhar  a penetração indiana no Moçambique. A sua obra Donas, Senhores e Escravos (1996) é particularmente interessante. O papel de Manuel António de Sousa ainda daria para um filme. Este irriquieto ex-seminarista e dono de aringas, mereceu uma estátua à entrada da vila de Mapuça, sua terra natal em Goa na fase final do regime colonial em Goa. Não teve mais sorte do que na África. Caiu vitima dos combatentes da liberdade em Goa que lhe explodiram a estátua por ter servido o regime colonial. Centenas de médicos e enfermeiros goeses arriscaram as suas vidas para tornar Moçambique (e não só Moçambique) colonizável pelos Portugueses após a independência do Brasil. Não teriamos urbanismo de nomear sem essa fase “suja”  de “pacificação” em que o envolvimento dos médicos goeses deixou a sua marca. Para além dos médicos eram os padres goeses do Padroado, que tomaram conta da missionação em Moçambique, particularmente após a extinção das ordens religiosas. Foi assim que a salvação chegou pelos pobres aos pobres, se entendemos bem o que escrevia um jesuíta português António Gomes, queixando-se dos seu compatriotas religiosos e leigos: ” .. quem diz que os Cafres são brutos para as couzas de Deus hé grande engano, faltam-lhe vizinhos a quem imitar”. Um dos primeiros goeses nomeados bispos, era o D. Altino Ribeiro de Santana, que começou o seu múnus pastoral em Sá da Bandeira em 1953  e foi transferido a seguir para Beira. A sua fidelidade ao regime não lhe mereceu a cooperação dos clérigos portugueses mais virados contra o regime colonial! Calculava mal o historiador-geográfo Orlando Ribeiro quando se pronunciou negativamente sobre a questão da nomeação dos goeses para bispados na África portuguesa no seu Goa em 1956 – Relatório ao Governo. Não foram os bispos goeses que contrariaram os interesses políticos do Estado Novo! Fica muita história do Moçambique por ser contada, incluindo o papel de Aquino Bragança que dedicou a sua vida ao Moçambique até ao fim, ao lado de Samora.

O presente volume da autoria de  José Manuel Fernandes, Maria de Lurdes Janeiro e Olga Iglésias Neves, e ilustrado por João Loureiro merece o nosso aplauso e apreciação pelo enriquecimento que traz para a historiografia e estudos de urbanismo e de arquitectura do Moçambique, durante o período 1875-1975.  Um índice alfabético remissivo é uma lacuna que poderá ser preenchida numa segunda edição.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s