Quem passa pela Avenida Duque D’Ávila, em Lisboa, pode observar num dos passeios laterais um pequeno dormitório, quase sempre ocupado pelo seu proprietário. Há mais de dois anos que este quarto improvisado ali se encontra, sendo impossível ignorá-lo devido à sua configuração imposta pelo recheio que o compõe. Por vezes chega a ocupar a via pública com alguns adornos, próprios de um verdadeiro quarto de dormir, tais como mesa-de-cabeceira, cadeira e alguns restos de camas velhas. Na verdade só falta um pequeno guarda-roupa, para resguardar do pó (devido às obras que ali se realizam há alguns anos) as vestes pessoais e os vários cobertores que se encontram amontoados ao fundo do improvisado local de descanso. Do lado direito da cama, bem acessível, encontra-se a garrafa do vinho tinto, sempre disposta a reconciliar o cidadão com os problemas que momentaneamente o afligem. 
Numa pequena abordagem efectuada recentemente ao ocupante deste espaço, admite-se a hipótese de mais um caso, igual a tantos outros, de imigração clandestina sem sucesso, seguida de exclusão social.
Dada a dificuldade de diálogo, por escusa do próprio no fornecimento de dados que pudessem permitir a conclusão da sua presença naquele local, conseguiu-se apurar que o mesmo tem trinta anos e é natural do Benim (África).
Relembrando um pouco de História sabemos que, a partir do século XVII, os portugueses estiveram naquele território, onde estabeleceram entrepostos comerciais no litoral, sendo então conhecida como Costa dos Escravos.
Em busca de sobrevivência
O homem espera por um pouco de nada que hesita em chegar;
Tudo na vida quisera… Agora, resta-lhe a espera que tarda acabar.
Perde-se o sonho que demorou a crescer!…
Em qualquer lugar procura uma forma de estar para sobreviver.
Assim, o tempo passa e o poderio disfarça a seu belo prazer.
Violência social é ter fome e não ter abrigo nem pão!…
É olhar nos olhos e não encontrar aceitação…
Extermínio lento é ser diferente e excluído da sociedade;
É dormir num espaço ao relento e sentir-se rejeitado…
Prepotência não pode ser uma arma!
Engana-se o homem que toma o nada como uma evidência;
Aqui, estamos em igualdade, numa breve permanência.
Nazaré Cunha (2008-12-10)