RELEMBRANDO UM GOÊS DE CARÁCTER

No dia 19 de Dezembro os Goeses se lembram da ‘’libertação’ ou ‘invasão’ de Goa pelas tropas indianas. Estava eu então no quinto ano do Curso Preparatório do Seminário de Saligão-Pilerne. Nestas alturas me lembro de homens que trabalharam contra as injustiças cometidas contra o povo. Professor Carlos da Cruz foi um homem de carácter que trabalhou pela povo até à morte. Ele foi homem de silêncio, infelizmente continuou a viver em silêncio também após a morte. Não se falou do seu valor. Mas ainda as pedras falarão no lugar em que ele nasceu, viveu e morreu.

Carlos Luís Martinho Nazário da Cruz nasceu aos 28 de Julho de 1907 em Chandor, Salcete, Goa. Os seus pais eram João Napoleão Víctor da Cruz e Amélia Ritinha Clara Lobo e Cruz. Ele foi um filho distinto do solo goês: professor, jornalista, lutador pela liberdade (freedom fighter), e um obreiro social no sentido verdadeiro da palavra. É interessante conhecer a sua vida de maneira que a juventude hoje possa admirar o modelo que ele nos deixou. Os Portugueses poderão admirar o sentido da liberdade e de emancipação que os Goeses viveram naquelas alturas. Admiramos o povo português, mas conhecemos também o valor dos goeses, que de resto eram admirados (e continuam a ser admirados) pela gente lusitana.

Carlos da Cruz estudou no Liceu Nacional em Pangim (Nova Goa). Mas não lhe permitiram avançar e terminar o seu Curso no Liceu, porque já então revelava tendências liberais e independência do espírito. Ele completou então a Escola Normal e fez o exame de Advogado, sem ter feito o quinto ano do Liceu. Como ele era inteligente, sempre colheu louros nos seus estudos. Ele foi mandado a uma aldeia remota e atrasada de Arambol, onde ele trabalhou com amor por massas da gente pobre e abriu lá uma escola para os trabalhadores que poderiam assistir de noite. Foi a primeira escola nocturna. Ele ensinava lá os direitos humanos e deveres cívicos, como também a civilidade e urbanidade. Ele foi sempre crítico das autoridades, quando fosse necessário. Escrevia ao «Anglo-Lusitano », mas os seus artigos não eram publicados. Então ele inaugurou um seu jornal «Oriente» e continuou a sua cruzada contra as injustiças perpetradas pelo Governo Português contra os Goeses.

Foi transferido a Silvassa, capital do districto de Dadra e Nagar-Haveli (que pertencia aos Portugueses até 1954). Ele continuou a ensinar e a ministrar língua e cultura portuguesas ao povo simples e rústico. Ao mesmo tempo, ele observou as condições desumanas do povo e trabalhou por ele. O povo era adivasi, indígena, e primitivo. Havia muita corrupção lá. Ele começou a publicar um outro jornal «Sandalcado», com o nome dum rio que corria entre Damão Grande e Damão Pequeno. Ele foi dimitido do serviço, contudo ele continuou a trabalhar e a lutar pelos seus direitos. Ele foi preso pelas autoridades portuguesas doze vezes, ele era «salvador» para essa gente.

Veio a conhecer outros goeses revolucionários, como Dr.Tristão Bragança Cunha e tornou-se membro activo da Comissão do Congresso de Goa. Também entrou em contacto com chefes nacionalistas, como Ram Manohar Lohia. Escrevia a Jawaharlal Nehru sobre os eventos políticos de Goa. Em 2 de Agosto de 1954 foi libertada Nagar-Haveli e se tornou parte e parcela de Índia. O Governo da Índia nomeou-o “Public Prosecutor” de Nagar-Aveli. Ele trabalhou ainda nesta posição pelo levantamento dos adivasis.

Faleceu repentinamente na tenra idade de 51 anos, após breve doença em 25 de Agosto de 1958. Estando doente ouviu cantar o Hino Nacional. Ele se levantou do leito, saudou a bandeira indiana e deu a sua esposa uma rupia para a sua sepultura. Ele morreu pobre sem deixar um ceitil. Ele se dedicou ao levantamento das massas.

Não figura o seu nome entre os combatentes  pela liberdade de Goa.  O centenário do  nascimento de Carlos da Cruz foi comemorado  em 28 de Julho de 2007. Gurunath Kelekar intenta publicar um livro acerca dos combatentes cristãos da liberdade contra o colonialismo.


Dr. Ivo da Conceição e Sousa

Margão, GOA

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