AS DEPRESSÕES E O CAPITALISMO

A realidade de hoje, consubstanciada numa crise económica e social de invulgar profundidade, propicia uma análise prática, digamos uma constatação real das críticas dos opositores ao regime capitalista selvagem que, indiscutivelmente, está na origem deste caos. Um capitalismo que tão depressa apresenta uma conjuntura de grande opulência como, de seguida, sem que nada o faça prever, se submerge num pantanal, se desmorona como se de um simples baralho de cartas se tratasse. Foi assim em 1929, quando a um período de grande desenvolvimento sucedeu uma depressão que abalou o mundo. Cerca de oitenta anos depois, o ciclo renova-se. A partir do momento em que os americanos se confrontaram com a impossibilidade de cumprir os compromissos assumidos na aquisição das suas casas, fortemente facilitada pela concessão selvagem de crédito pelos bancos, numa procura desmesurada de lucros a qualquer preço, o caminho encontrava-se aberto à degradação económica. Que razões estruturais podem, de alguma forma, ajudar a compreender este fenómeno? Logo na sua infância, o grande capital estabeleceu uma ortodoxia própria, baseada simplesmente no lucro, colocando de parte, com raras excepções, qualquer preocupação social. Escolheu a via de uma intensa concentração de modo a controlar os custos da produção. Desse jeito, surgiram os poderosos grupos de empresas conseguidos, particularmente, através de fusões ou da formação de carteis, os quais criaram os grandes monopólios que repartiram entre si os mercados mundiais, dando origem a um novo colonialismo, a uma diferente figura de totalitarismo. Na sequência, foi imposta aos países mais pobres uma produção completamente alheia aos interesses das populações locais, asfixiando os seus métodos tradicionais que, embora menos desenvolvidos, contribuiriam, por certo, em grande escala, para o amenizar dos seus problemas. O resultado foi o que se viu! O sociólogo francês Jean Baudrillard faz uma interpretação real do mundo contemporâneo que gira em torno de uma sociedade de consumo organizada não a partir da produção mas antes a partir do consumo, uma espécie de sociedade do desperdício. Nesta sociedade, permanentemente aliciada para o consumo fácil, o crédito desempenha um papel essencial, um crédito que conduz ao endividamento das famílias para além das suas reais possibilidades, por vezes sem disso se aperceberem, adquirindo o que não querem em detrimento do que precisam. O poder económico que, na realidade, concentra em si também o poder político e social, conseguiu até, como observa Boaventura de Sousa Santos, a industrialização da ciência, passando a deter o principal papel na definição das suas prioridades. Aqui, têm muitas Universidades uma boa quota parte de responsabilidade pelo incentivo dado aos cursos que melhor se integram na estrutura capitalista. A descolonização das industrias, outro fenómeno recorrente dos nossos dias, insere-se no mesmo contexto. No momento em que o lucro se esvazia, busca-se uma localização mais favorável, geralmente num país periférico, sem regras laborais e, por conseguinte, mais propício à exploração de uma mão de obra a quem, por norma, são atribuídos salários de sobrevivência ou menos do que isso. O grande problema é que este capitalismo se mostrou incapaz de sustentar um sistema financeiro corroído pela obsessão do lucro e por um conjunto de falsários de que Madoff é o líder paradigmático. Daí a conturbação que atinge toda a humanidade, a angústia que acomete, diariamente, milhões de seres que, de um momento para o outro, vêem a suas vidas feitas em nada.

José Maria Mendes <jmm.1936@sapo.pt>

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