Santos Portugueses: De S. Teotónio a S. Nuno. Para quando S. Salazar?

O primeiro santo português,  S. Teotónio, foi o   fundador espiritual da nação portuguesa. O primeiro abade crúzio de Coimbra,  introduziu a espiritualidade dos agostinhos eremitas em Portugal. Ao contrário da espiritualidade dos beneditinos então em voga e apreciada pelos ricos-homens e senhores feudais, a nova espiritualidade era  adequada às exigências e dureza das guerras da Reconquista promovida pelos Infanções. Era uma espiritualidade que justificava a “guerra justa” contra os infiéis (mouros), as cruzadas do Ocidente, às quais seguiriam as cruzadas do Oriente.  Correspondia a jihad cristão contra os muçulmanos. Conta-se que S. Teotónio acompanhou de joelhos em oração as campanhas militares de D. Afonso Henriques para a conquista de Santarém e de Lisboa.  Mas também se conta que a sua influência sobre D. Afonso Henriques lhe permitia que muitos reféns muçulmanos fossem libertos.  Todavia o  motivo maior para a sua canonização foi o empenho com que ele colaborou na implementação da  Reforma Gregoriana do papa Gregório VII e na concretização de Dictatus Papae em Portugal.

No caso do santo hoje canonizado sabemos que foi um político-militar e estratego da defesa de Portugal contra a investida do reino vizinho em Aljubarrota. Foi uma vitória que mudou o rumo político e económico de Portugal.  Como disse um historiador,  foi a partir dessa data que Portugal vira-se para o mar e para o sul. Fenómeno designado por “litoralização e meridionalização” de Portugal, prelúdio dos Descobrimentos.  Portugal abandona os sonhos de expansão e grandezas no interior da península.  Seria interessante analisar porque o papel nacionalista do Santo Condestável foi publicamente elogiado pelos republicanos anti-clericais da I República, mas recebeu pouca atenção dos republicanos  de hoje em Portugal.  A Igreja nacional e romana procurou desdramatizar as implicações do silêncio dos políticos (exceptuando a intervenção pública e apreciativa do Presidente da República que viu no santo um modelo de intervenção eficaz nas crises nacionais, com um apelo aos políticos e empresários no contexto da crise económica em curso), salientando a escolha que o  Santo Condestável fez de uma vida de fé e caridade, trocando as outras opções que estavam disponíveis. Faz-nos lembrar de um paralelo muito antigo do imperador  Ashoka na Índia.  Este imperador  converteu-se ao budismo e propagou o budismo após uma batalha sangrenta de Kalinga que lhe deu vitória, mas também uma nova percepção da vida. É um caso anterior ao do imperador Constantino, que é mais conhecido no Ocidente. O imperador Constantino devia ser chamado Ashoka do Ocidente, e não vice-versa como acontece na historiografia europeia.

Não seria despropositado registar que entre outros santos portugueses encontram-se dois com ligações à Índia: S. Gonçalo Garcia (com mãe indiana), franciscano martirizado no Japão,  e S. João de Brito,  Jesuíta, “martirizado” na Índia por ter denunciado a poligamia dos príncipes hindus na região de Madura (hoje Tamilnadu).

A política das canonizações tem as suas ambiguidades e motivos para contestação.  Se houve quem decidisse dedicar ontem um largo ao Dr. A. de Oliveira Salazar em Santa Comba Dão no dia em que se comemorava 25 de Abril, pode não estar longe o dia em que  ele seja apresentado como candidato para canonização.  Ninguém duvida que precisamos urgentemente de um  modelo de  político incorrupto, tanto em falta! Talvez o Papa Bento XVI nos acuda.

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